Esquerda retoma aliança no Rio temendo derrota em 2000
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de novembro de 1999
por Wilson Tosta 
Rio, 13 (AE) - Sepultada depois da vitória do ano passado, a aliança dos partidos de esquerda no Rio está ressurgindo por causa da crise que rachou o PT, contaminou o PDT e aproxima-se do PSB. Sob a ameaça real de derrota em 2000, o PT
PDT, PSB, PCB e PC do B lançaram o Fórum Permanente - reedição do comando da frente Muda Rio, "morto" desde 1998 -, preparam-se para discutir candidaturas às prefeituras e até falam em reproduzi-lo em outros Estados. O objetivo tático é o fortalecimento para enfrentar o governador Anthony Garotinho (PDT); o estratégico, manter a unidade até as eleições de 2002.
O presidente do PDT, Leonel Brizola, é um dos mais entusiasmados defensores do Fórum, uma proposta do secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Alexandre Cardoso, presidente regional do PSB. Oficialmente, Brizola diz querer unir os partidos para reviver "a boa prática do presidencialismo democrático". Mas os bastidores dessa estratégia indicam que ele quer ajuda de outras legendas para enfrentar Garotinho, que se movimenta para articular a candidatura à Presidência. A desenvoltura de Garotinho, que anunciou querer modernizar o PDT, rachou o partido.
"Trabalhamos para que a frente nacional de oposição se projete nas eleições municipais", diz Brizola. "Agora, vamos encontrar dificuldades: devemos ser flexíveis, sabendo que as eleições nos grandes centros urbanos têm conteúdo político-ideológico muito mais definido e que, nessas grandes concentrações, cada caso é um caso." O presidente do PDT está preocupado com a capital do Estado, onde já se delineia novo enfrentamento com Garotinho. O governador diz que sua candidata é a vice, Benedita da Silva (PT) - suspeita-se que isso seja um blefe -, mas Brizola garante que o PDT terá candidatura própria.
Para o dividido PT do Rio, o Fórum Permanente também surgiu como uma chance de tentar o fortalecimento dos partidos, contra Garotinho. "A análise de todos é a de que misturaram questões de governo e questões partidárias", diz o presidente do PT fluminense, deputado Carlos Santana. "Depois da eleição, todo mundo se concentrou no governo." O petista afirma que, eleito o governador, a política foi abandonada, em favor da formação do secretariado e da briga por cargos. "Não nos sentamos mais para discutir", observa. "É um erro."
Santana pretende dar objetivos políticos mais gerais ao Fórum Permanente - por exemplo, para fazer mobilizações em favor de propostas contra o desemprego -, mas, como Brizola, também se preocupa com 2000. Ele quer evitar a pulverização de candidaturas. O fato só não ocorreu no Rio, no ano passado, por causa de uma intervenção da direção nacional do PT na seção fluminense, cassando a candidatura de Vladimir Palmeira e abrindo uma crise até hoje não encerrada. "Na capital, todo mundo quer lançar candidato", afirma Santana. "Se a esquerda se dividir, perde; sair sozinho é sair para ser derrotado." Paradoxalmente, o autor da proposta de ressuscitar a frente, cujo objetivo seria evitar a divisão em 2000, é candidato à prefeitura e não abre mão dessa postulação. "O Fórum Permanente vai tentar evitar grandes embaraços", explica Alexandre Cardoso, com a experiência de quem já foi da coordenação de campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989. "Se houver problema em um município, terá de ser resolvido."
Rusga - Cardoso sustenta que o Fórum vai pronunciar-se quando houver uma questão política a tratar. O socialista nega que a instância tenha por objetivo obrigar o governador a se submeter às suas decisões. Ressalta, porém, que, sempre que houver um assunto importante, envolvendo questões nacionais de princípio das oposições (como a cobrança previdenciária dos aposentados, combatida pela esquerda), o Fórum reafirmará suas posições. Mas, por enquanto, a frente se concentra em questões mais domésticas.
Uma delas é a formação do conselho político de governo, que os partidos de esquerda exigem de Garotinho, acusado de ser centralizador e de não ouvir ninguém para agir. Ironicamente, a mesma acusação que Brizola, um dos que falam isso, já sofreu durante seus dois governos (1983-1986 e 1991-1994). Outra é a solução de brigas domésticas ou com o governo, que, segundo Cardoso, deverão ser mais um alvo da ação do Fórum.
Uma nova rusga já surgiu no PSB. Lá, o deputado Jamil Haddad ameaçou romper com o governo depois de saber que Garotinho, reservadamente, o acusou de votar contra suas propostas por não ter conseguido fazer nomeações na área da saúde. "Tenho 40 anos de vida pública; quando o governador nasceu eu já estava lutando", protesta Haddad. Garotinho nega que tenha feito esses comentários, mas participantes de uma reunião do governador com o PT e de outra, com o PDT, confirmam que ele repetiu as afirmações contra o parlamentar.


