Washington, 24 (AE) - A briga pelo comando do Fundo Monetário Internacional (FMI) entrará na reta final nos próximos dias. Mas pessoas familiarizadas com a disputa acreditam que poderá ser uma longa reta final. E ela poderá complicar-se com a apresentação, dentro de duas semanas, de um estudo preparado por uma comissão especial formada pelo Congresso dos Estados Unidos para estudar uma reforma das instituições financeiras internacionais.
Segundo informações que circulam nos meios oficiais em Washington, a comissão proporá que o FMI volte a fazer apenas empréstimos de curto prazo, na mesma linha de um plano já apresentado pelo secretário do Tesouro americano, Larry Summers, em dezembro passado.
A comissão deve recomendar, também, que o Banco Mundial deixe de dar crédito aos países da América Latina e do Caribe, deixando essa tarefa às organizações regionais de fomento ao desenvolvimento, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Asiático de Desenvolvimento.
A comissão, que inclui entre seus membros os economistas Jeffrey Sachs, da Universidade de Harvard, e Fred Bergstein, do Instituto de Economia Internacional, deverá sugerir ainda a extinção da Corporação Financeira Internacional (IFC) e da Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA), agências do Banco Mundial voltadas para o desenvolvimento do setor privado nas nações emergentes.
"É difícil prever o impacto que a apresentação desse trabalho terá na sucessão no FMI, mas há poucas dúvidas de que ele reforçará a suspeita de que os Estados Unidos desejam ampliar sua influencia no manejo das organizações financeiras de crédito
a começar pelo FMI", disse um alto funcionário internacional.
A escolha do novo diretor geral do Fundo começará na próxima semana. A expectativa é que os 24 diretores-executivos da instituição, que representam o conjunto de seus 182 países membros, darão início ao processo de eleição do sucessor do francês Michel Camdessus tão logo o governo da Alemanha apresente formalmente a candidatura de seu vice-ministro das finanças, Caio Koch-Weser. Isso deve acontecer na quarta-feira, um dia depois de os ministros das finanças da União Européia endossarem o nome de Koch-Weser numa reunião em Bruxelas.
Koch-Weser é brasileiro de nascimento e fez carreira no Banco Mundial. Até hoje, o cargo de diretor geral do FMI foi ocupado apenas por europeus e a presidência do Banco Mundial esteve sempre nas mãos de um americano. Mas essa tradição está sendo contestada pela primeira vez na história das duas organizações. Numa decisão inédita, na última quarta-feira o Japão, que é segundo maior acionista individual do Fundo, com 6,23% do poder de voto no "board", lançou candidato próprio - o ex-vice ministro das finanças Eiseku Sakakibara.
No mesmo dia, vinte países africanos também inovaram e apresentaram um terceiro candidato: o atual diretor geral interino, Stanley Fischer, que nasceu na Zambia e é americano naturalizado. Fischer aceitou imediatamente a indicação formal de seu nome numa nota distribuída à imprensa pelo FMI, fato que alimentou especulações segundo as quais sua candidatura seria parte de uma manobra articulada por Summers para barrar o caminho a Koch-Weser, protelar a decisão e forçar a busca de novos nomes num ambiente já condicionado por propostas de reformas das operações do FMI.
O poder de voto dos países na diretoria do FMI reflete a importância relativa do PIB de cada um deles na economia mundial. Mas dezesseis das 24 diretorias representam grupos de países, o que cria uma dinâmica especial em decisões como a eleição do diretor geral da instituição. Os EUA são o maior acionista individual do FMI. Têm 17,35% dos votos, o que lhes garante, em tese, poder de veto no "board". Nas últimas semanas, o secretário do tesouro americano forneceu todas as indicações possíveis de que não considera Koch-Weser um homem qualificado para a suceder Camdessus.
Embora mesmo o apoio da União Européia a Koch-Weser não pareça ser entusiástico, a aritmética do poder no FMI favorece sua candidatura. Somados, os países da Europa detém cerca de 40% dos votos. O candidato alemão já conta com o respaldo da China (2 2%) e pode obter o suporte dos países francófonos da áfrica (1 7%). Mas isso depende do empenho com que a França, que relutou para apoiar Koch-Weser, trabalhar por sua candidatura.
Presumindo-se que os Estados Unidos abstenham-se ou se pronunciem por Fischer nas primeiras votações, que podem tomar a forma de consultas informais, o candidato europeu poderá precisar do Brasil, da Argentina e do México para consolidar uma maioria dos votos e tornar politicamente difícil para os americanos e os japoneses impedir sua eleição.
Mas o Brasil, que controla uma cadeira com 2,49% dos votos, não se pronunciou até agora por nenhum candidato e não é certo que tomará a iniciativa de liderar a campanha por Koch-Weser na região, apesar da origem brasileira do alto funcionário alemão.
E o México e a Argentina, que representam conjuntos de países com poder de voto de 4,34% e 2,06%, respectivamente, posicionaram-se contra Koch-Weser em reuniões de países latino-americanos, em semanas recentes, e precisariam ser convencidos a mudar de posição. A missão, supostamente, caberia aos espanhóis.

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