Esquema de cobrança de propinas na Penha arrecadava R$ 288 mil, diz ex-funcionário
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quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Flávio Mello 
São Paulo, 25 (AE) - O ex-supervisor dos serviços de limpeza da Administração Regional da Penha, Pedro Antônio Saul, afirmou hoje, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Máfia dos Fiscais, que o esquema de cobrança de propinas naquela regional arrecadava o equivalente a R$ 288 mil por ano. Saul explicou como o dinheiro era repartido e que "havia um esquema muito superior do que pensava quando aceitou participar".
De acordo com ele, os cerca de R$ 24 mil mensais correspondiam a 2% do valor do contrato com Enterpa Engenharia Ambiental - uma das empresas que dividem o mercado do lixo em São Paulo. Desse total, 70% eram respassados para o administrador regional e 30%, ficavam com ele. Dos 70%, 20% ficavam com o administrador e os 50% restantes iam para o vereador Vicente Viscome. Saul disse que apropriava-se de 10% dos 30% e a sobra de 20% era repartida com funcionários mais humildes - os nomes não foram revelados.
Segundo Saul, o ex-administrador regional Paulo Roberto Tirolli, indicado pelo ex-secretário municipal de Vias Públicas, Serviços e Obras e das Administrações Regionais Alfredo Mário Savelli, recebeu propina uma única vez. Em depoimento à CPI, Tirolli afirmou nunca ter recebido dinheiro proveniente de propina. Sem fiscalização - No depoimento ele contou que quando começou a participar do esquema de corrupção, percebeu que o contrato dificilmente seria fiscalizado. Isso porque não havia condições físicas e nem fiscais suficientes para checar se o serviço estabelecido estava sendo cumprido pela empresa contratada. As planilhas de varrição, segundo Saul, vinham elaboradas por técnicos da empresa com serviços superestimados. As ruas principais têm número de varrição definido no contrato, mas as secundárias eram definidas pelo administrador regional.
A propina era paga para que o não-cumprimento do contrato fosse ignorado, pago sem correção alguma e sem a aplicação de multas. "Eu assinava as planilhas de medição e recebia o dinheiro em dólar, mas nunca fizemos pressão alguma para que a empresa pagasse", afirmou Saul. Na prática, Saul contradice o presidente da Enterpa, Roberto Rocha, que em depoimento à polícia e ao Ministério Público do Estado (MPE) afirmou ter sido coagido a pagar propina para que as planilhas de medição fossem liberadas e realizado o pagamento do serviço. Pressão e medo - Ao ser perguntado quem dera a ordem para liberar as planilhas de medição, Saul demonstrou-se visivelmente incomodado e temeroso. "Não era uma pressão direta, era do esquema que já existia e era muito maior do que eu pensava inicialmente", repetiu. No final, admitiu ter medo de Viscome e que temia pela segurança de sua família. Sessão extra - Os integrantes da CPI aprovaram hoje sessão extraordinária para sábado. Eles pretendem emitir o relatório sobre as irregularidades na Administração Regional da Penha na próxima semana. O próximo módulo de investigação será a Administração Regional da Sé, que foi controlada politicamente pelo ex-vereador e deputado estadual Hanna Garib - suspenso pela Executiva Estadual do PPB.
Na sessão de amanhã, a CPI tomará os depoimentos do presidente da Enterpa, Roberto Rocha, da Panco, Kiotero Yonamini
que supostamente pagaram proprinas para funcionários da Administração Regional da Penha. O coronel Ivan Márcio Gitahy também deve ser ouvido e Fernando Lepper, também da Regional da Penha, que não compareceu hoje à sessão.


