Esposas de desaparecidos da Caxemira vivem na miséria
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quarta-feira, 20 de outubro de 1999
Por Krishnan Guruswamy 
Srinagar, Índia (AE-AP) - Elas são colocadas de lado pelos parentes dos maridos, mantidas à distância pelos vizinhos, exploradas por seus empregadores e molestadas por oficiais de segurança. Elas são as "meio-viúvas" da Caxemira, cerca de duas mil mulheres cujos maridos nunca retornaram para casa após as forças de segurança os levarem como suspeitos de separatismo para interrogatórios.
Apenas uma esperança as mantém vivas. A esperança de que seus maridos, e também filhos, voltarão para casa um dia. Sob a lei islâmica, um mulher pode casar-se novamente após quatro anos de desaparecimento do marido, caso esforços reais tiverem sido feitos para encontrá-lo. Na prática, elas não querem se casar novamente.
"Elas continuam esperando que seus maridos voltem", diz Bashir Ahmad Dabla, professor de sociologia que estudou o caso das "meio- viúvas" no início deste ano. Parveen Angher, uma ativista dos direitos humanos, tem ajudado mulheres muçulmanas pobres a abrir processos de pedido de ajuda ao governo indiano. "Elas não têm nenhuma fonte de renda. Seus filhos geralmente não vão à escola e suas condições de saúde não são boas. Na maioria do tempo elas choram e esperam", diz ela. Angher fundou a Associação dos Pais de Pessoas Desaparecidas depois que a polícia levou seu filho de 15 anos nove anos atrás. Ele nunca voltou para casa.
Em 1989, uma revolução estourou no Vale da Caxemira, uma área majoritariamente muçulmana que milícias desta religião querem separar da Índia, que é predominantemente hindu. A guerra de guerrilhas matou milhares de civis, militantes, policiais, oficiais militares e paramilitares. Forças de segurança têm poderes especiais para deter qualquer um sem apresentar as razões.
Centenas de civis desapareceram, alguns mortos pelas guerrilhas que suspeitam que sejam informantes da polícia. Denúncias de tortura e de desrespeito aos direitos humanos são numerosas em ambos os lados.
Zainam, uma meio-viúva que como tantas outras pediu para ser identificada apenas por seu primeiro nome, diz que não vê seu marido desde que soldados invadiram sua casa há três anos. "Eles bateram no meu marido por duas horas. Ele gritou o tempo todo. Então, não ouvimos mais nada. Os soldados foram embora. Nós descemos as escadas. Ele não estava lá. Nós nunca mais o vimos", diz ela. A analfabeta mães de três crianças diz que foi a dezenas de acampamentos do exército e delegacias de polícia a procura do seu marido, que era jardineiro e trabalhava para o governo. "Costumávamos ouvir dos aldeões que ele estava aqui ou lá, mas nunca o encontramos", diz Zainam, que parece muito mais velha do que seus 30 anos.
Ela nunca foi à escola, como a maioria das mulheres nesta região dominada pelos homens muçulmanos e vive com a família ampliada do seu marido. Zainam está enfraquecida devido a uma anemia e sofre e hipertensão. Sua filha mais velha sofre de leucodermia, um problema de pele marcado por manchas brancas irregulares, mas Zainam não tem dinheiro para remédios.
Rafiqua, outra meio-viúva, diz que seus sogros mandaram-na de volta para a casa de seus pais após reclamarem das 10 mil rúpias (US$ 230) que eles gastaram procurando por seu marido. Ele foi pego pelas forças de segurança em 1996. Ela diz que trabalhava de manhã até a noite para seus sogros. "Eles não compravam sequer sabonete para mim". Agora eles a querem de volta. "Eu sou como uma empregada na casa deles. Mas o que eu posso fazer? Não posso continuar a viver como meus pais. Eles têm outros filhos para cuidar", diz Rafiqua, mãe de quatro crianças aos 25 anos de idade.
Seu filho, Faisal, de cinco anos, fica sentado ao seu lado durante a entrevista. "Ele está sempre quieto", diz ela. "O médico disse: Não deixe que ele veja pessoas chorando. Ele está sempre deprimido".
As meio-viúvas e seus filhos apresentam sintomas de depressão. A maioria das mulheres têm dores no coração, diz Dabla, o sociólogo. "A condição das meio-viúvas é pior do que a das viúvas. Elas não sabem se seus maridos estão vivos ou mortos", diz. "Numa sociedade islâmica as mulheres têm poucos direitos. Estas mulheres são em sua maioria analfabetas e não têm condições de conseguir um emprego".
Dabla soube de crianças, cujos pais desapareceram, que deixaram a escola e desenvolveram comportamentos criminosos. "A estrutura de autoridade dentro de casa ruiu. As crianças, especialmente, desenvolvem uma alma vingativa. Se as forças de segurança levaram seus pais, elas demonstram raiva em relação ao governo e suas ações. Se foram as milícias as causadoras do desaparecimento, elas querem vingar-se", explica Dabla.
Numa tentativa de pressionar o governo a admitir que os homens desaparecidos foram assassinados e a pagar uma compensação para as famílias, o advogado dos direitos humanos Parvez Imroz está ajudando 300 meio-viúvas a insistir em processos exigindo que as forças de segurança apresentem os desaparecidos na corte judicial. Os casos arrastam-se, muitas vezes, por 10 anos, diz Imroz, que defende os casos sem cobrar. Ele quer que o governo pague as mesmas 150 mil rúpias (US$ 3.500) que concede aos parentes de pessoas reconhecidamente mortas por forças de segurança ou pelos separatistas. A polícia e as forças de segurança raramente admitem ter capturado os desaparecidos. Quando há evidências, eles dizem que os homens foram soltos.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos Jammu-Caxemira, Ghulam Ahmed Kuchchai, disse que vai insistir para que o governo pague compensações mesmo se não houver informações sobre o paradeiro dos desaparecidos. A comissão, instaurada pelo governo em agosto de 1997, está examinando mais de 300 reclamações de abusos dos direitos humanos na Caxemira. Não tem poderes para punir ninguém, mas suas recomendações estão comprometendo o governo com a questão.


