Paris (AE-AP) - A fila forma-se ao redor do antigo depósito de vinho que foi reformado e fica num novo bairro chique de Paris. À espera, novas jovens estrelas francesas do mercado da Internet que enchem seus bolsos com cartões de visita e pontuam suas frases com termos emprestados dos norte-americanos, tais como marketing e IPO.
"Nós estamos procurando por contatos e parceiros", diz o estudante de telecomunicações Herve Andrieu, 22 anos, que está na fila com os amigos com os quais fundou a Comparatel.fr, um site nascido há apenas alguns meses e que ajuda pessoas à procura de telefones celulares a comparar preços.
O evento, chamado Primeira Terça-feira, é a mais esperada festa mensal com coquetel e seminários, quando jovens empresários encontram-se com investidores que oferecem conselhos e, ocasionalmente, grandes oportunidades.
O conceito teve início em Londres e rapidamente se espalhou. Desde sua estréia em setembro num apertado café, o evento começou a juntar grupos de mais de 1.500 pessoas. Sua desenfreada popularidade em Paris é um claro sinal da grande onda de empresários de Internet - e a boa vontade dos franceses em aceitar a net e seu estilo americano - uma desenfreada versão do capitalismo. E isso não com rancor, mas com excitação.
"Nos últimos seis meses, algo foi despertado na França", disse Jean-Baptiste Labrune, um dos fundadores do Kabale, uma comunidade com base na Internet que será lançada em breve e que terá um fórum sobre o qual Labrune recusa-se a oferecer detalhes.
Apesar da tecnologia "sem fio" ter sido aceita aqui e os telefones celulares serem muito populares, a aceitação dos franceses em relação à Internet fica atrás dos Estados Unidos e da maior parte do norte da Europa.
Entre a maioria dos habitantes do país há o temor de que a Internet, dominada pelo inglês, possa derrubar a língua francesa e diminuir seu status cultural.
A comunicação telefônica e os custos dos computadores eram altos. Além disso, os franceses eram devotados ao seu próprio produto sofisticado de tecnologia da informação, o Minitel, lançado em 1983.
Mas, repentinamente, ônibus, táxis e páginas de revistas francesas estão salpicados por anúncios pontocom para entrega de flores, viagens de última hora e comércio de ações on-line. E, apesar do governo ter tentado "afrancesar" os termos tecnológicos ingleses, com coisas do tipo "cederom" para CD-ROM e "mel" para e-mail, o vocabulário de tecnologia aumenta numa velocidade muito grande demais para que os estudiosos da língua possam acompanhar.
O número de usuários da Internet mais do que dobrou em 1999, informa a Associação dos Provedores de Serviço de Internet da França. Hoje, mais de três milhões dos 60 milhões de habitantes estão conectados, e quase o dobro deste número conecta-se ocasionalmente.
Mas ainda há muito espaço para crescimento. Nos EUA, 56,6% das residências tinham um computador no ano passado, de acordo com o grupo de pesquisas Jupiter Communications Inc. Deste número, quase 78% têm acesso a Internet. Na França, apenas 25% das casas possui um computador e só 35% estão on-line, informa a Jupiter.
A febre da net despertou uma nova cultura de jovens empresários, atitude que antigamente era inimaginável numa sociedade em que a burocracia e pesados impostos tende a manter as pessoas em pequenos negócios.
Os novos empresários têm menos de 35 anos, são em sua maioria homens e tendem a agrupar-se em locais "quentes" como o "Silicon Sentier", um tumultuado bairro têxtil no centro de Paris onde as novas empresas high tech agora prosperam.
Muitos deixam bons empregos em consultorias ou empresas, outros saem da universidade, um ato quase revolucionário num país em que o desemprego de dois dígitos mantém muitos jovens na escola. "As pessoas disseram que eu era louco quando abandonei meus estudos logo depois do ensino médio", diz Jeremie Berrebi, 21 anos, fundador e presidente da www.Net2One.com, um serviço de informação personalizada que envia aos seus usuários notícias via e-mail e agenda eletrônica.
Poucas semanas depois de Berrebi ter anunciado seu projeto, no mês de julho, ele e seu sócio-fundador já tinham levantado US$ 1 5 milhão. Desde então o site já foi lançado internacionalmente, em francês e em inglês e, em breve, deve conquistar investimentos de US$ 10 milhões.
"Há dez vezes mais dinheiro do que havia um ano atrás", diz Philippe ORorke do Ireland Fund de France, que encontrou capital para três diferentes grupos de empreendedores que ele encontrou durante a Primeira Terça-feira.
Investidores franceses comuns estão começando a juntar-se ao grupo, mesmo que, tradicionalmente, sejam cautelosos em relação ao mercado de capitais. Agora, eles descobriram que não podem se dar ao luxo de ficar de fora.
Hubert de Marliave, um analista da BNP Paribas, diz que 40% dos franceses que registram-se em corretoras nunca tiveram ações antes. "Eles tendem a comprar papéis de Internet", diz Marliave. "E da mesma forma fazem os administradores, que perderam o trem no ano passado".
O "nouveau marche" ou novo mercado - o grupo de ações altamente valorizadas, em sua maioria papéis de alta tecnologia, subiu mais de 120% na Bolsa de Paris deste janeiro.
O Ministério das Finanças prevê que a nova tecnologia da informação será responsável por um aumento entre 15 % e 20% da atividade econômica no país neste ano. Mas empreendedores pequenos não são os únicos a alimentar o esta cadeia.
Quando a gigante France Telecom anunciou planos, no dia 2 de março, de lançar suas ações de negócios de Internet, os papéis do grupo subiram 25%, promovendo uma nova alta na bolsa de Paris. O e-commerce ainda está engatinhando aqui, diz Pierric Colombier, um analista da Credit Lyonnais Securities Europe. Os franceses não têm muita confiança na segurança on-line", afirma ele.
As empresa de turismo na rede tende a quebrar esta regra, embora os sites de informação sejam o maior sucesso atualmente. Muitos dizem que o entusiasmo e o capital de risco estão indo além do desenvolvimento do país na medida em que a França tenta rapidamente alcançar os EUA depois de um atraso de vários anos. Outros temem uma iminente quebra, já que os papéis de Internet sobem como foguetes, aparentemente sem limite.
"O alvoroço aqui é um pouco excessivo", diz Flore Vasseur, uma francesa que fundou a TrendSpotting, uma empresa de marketing estratégico em Nova York que dá aos europeus dicas sobre as próximas tendências norte-americanas. Mas o entusiasmo continua a ser instigante, diz Vasseur, que esteve em Paris para a Primeira Terça-feira em março e ficou impressionada com o número de pessoas. "Um ano atrás quem poderia imaginar esta loucura?".

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