São Paulo, 19 (AE) - O dólar rompeu a barreira dos R$ 2 00 hoje logo na abertura do mercado ao ser negociado por R$ 2 002, diante da expectativa ruim quanto à inflação norte-americana. Muito embora o número divulgado tenha ficado dentro das estimativas, no período da tarde o dólar encontrou espaço para subir mais, atingindo a máxima do dia, de R$ 2,004, e retornando aos R$ 2,002, no fechamento, com alta de 0,20%, o nível mais alto desde o início de março.
A alta ocorreu num clima de aparente de tranquilidade. Ou seja, não houve uma busca desenfreada pela moeda norte-americana, fato que pressionaria a cotação. Segundo o executivo de um banco, não existe pânico no mercado, que há semanas assiste a uma alta contínua e persistente do dólar. "Mas todo mundo está comprado."
Por mais que prevaleça o consenso de que o dólar em R$ 2 00 está caro demais, ninguém quer vendê-lo, nem o Banco Central. Esse fato tem levantado suspeitas de que a autoridade monetária estaria impedida de vender a moeda por causa dos limites impostos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para o nível das reservas internacionais. Essa sensação ficou mais intensa depois que a emissão de bônus fechada nesta semana, no valor de R$ 2 bilhões, se limitou à troca de títulos da dívida externa renegociada. Não foi uma operação que resultou na entrada de dinheiro novo, que ampliasse as reservas.
Dia - O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de setembro
principal indicador da inflação norte-americana, ficou dentro do esperado, 0,4%. O temor de um número bem acima ganhou força depois da divulgação, na semana passada, do resultado elevado do Índice de Preços ao Atacado (PPI) . Tanto que na sexta-feira as bolsas mundias despencaram e as brasileras acompanharam.
O receio de nova alta das taxas de juros de curto prazo norte-americanas, para frear uma possível escalada inflacionária
aumenta enormemente as incertezas em relação às condições de financiamento externo de médio prazo da economia brasileira, analisa o economista Roberto Padovani, da Tendências Consultoria Integrada.
Uma alta inesperada dos juros, diz, poderia levar a uma queda mais acentuada das bolsas norte-americanas, fazendo com que os investidores assumissem um posição mais defensiva contra uma futura desvalorização do real.
Por isso, o número do CPI dentro do previsto melhorou as expectativas do mercado e o dólar chegou a cair ainda no período da manhã em relação ao real. A cotação mínima do dia foi de R$ 1 9880. À tarde a moeda voltou a subir, mesmo com o leilão de papéis cambiais do governo. Operadores explicam que, embora o leilão realizado hoje fosse para vender papéis de longo prazo destinados à rolagem de títulos que estão vencendo, sem efeito, portanto, sobre as cotações, sempre que ele ocorre contribui para arrefecer os ânimos. Desta vez isso não ocorreu.
"Apesar dos sinais positivos de risco Brasil dados pela reunião de governadores no fim de semana e pelos bons resultados das contas externas em setembro, existe hoje uma pressão inflacionária que aumenta as incertezas domésticas", afirma. Segundo Padovani, também há dúvidas quanto à capacidade do BC de intervir no mercado vendendo dólares para derrubar a taxa de câmbio.
A estratégia do presidente do BC, Armínio Fraga, tem sido atuar no câmbio quando o dólar já mostra sinais de recuo ou estabilidade e não quando a pressão é forte. Essa política, no entanto, pode ser interpretada também como uma ação tardia, segundo um operador. Isso porque, depois que a cotação atinge um determinado nível, fica difícil derrubá-la.
Limite - Certamente, segundo a Tendências, um fato limitante das intervenções é o cumprimento da meta das reservas líquidas internacionais. A troca de R$ 2 bilhões de bônus por papéis de dívida externa renegociada não produziu o incremento esperado nas reservas líquidas internacionais. Essa seria a explicação para o BC não vender dólares. Esse cenário de restrição cambial aliado à uma taxa de juros em queda poderia ter estimulado muitos investidores a comprar dólar para especular.

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