Paris, 29 (AE) - Às vezes, como qualquer outro país, a França tem mau caráter.
Sobretudo quando se ferem seus brios, se ataca aquilo de que ela se ufana: suas trufas, seu "foie gras", seu "roquefort" e alguns outros produtos oriundos de uma experiência gastronômica plurissecular. Estes alimentos são aqui considerados ao mesmo tempo como o símbolo da França e como obras de arte - o que não é falso, se forem comparados com os "hambúrgueres" ou os lanches MacDonalds...
Ora, os Estados Unidos, com o aval da Organização Mundial do Comércio (OMC), acabam de atacar estas maravilhas. Os norte-americanos acabam de impor taxas aduaneiras de 100% sobre uma lista de produtos europeus.
O aumento é enorme. Por exemplo, o "roquefort" custa atualmente nos Estados Unidos 72 francos por quilo. Com a taxa, passará a custar 200 francos por quilo.
Mas é preciso esclarecer imediatamente: os Estados Unidos não compram grande quantidade de "roquefort". Não servem o "roquefort" como queijo, mas o usam simplesmente para dar gosto às pizzas! Consequentemente, a medida adotada pelos Estados Unidos não é feroz. Para a União Européia como um todo, as medidas discriminatórias de Washington significarão que os produtores europeus "deixarão de ganhar" 116 milhões de dólares - algo insignificante. Mas, além destes números, existem questões de princípio que são levantadas.
Porque esta guerra entre Estados Unidos e Europa? Por causa do boi americano, que, como se sabe, é tratado com hormônios. Para os norte-americanos, estes hormônios não apresentam nenhum perigo. "Nossa carne é a melhor do mundo", dizem os pecuaristas americanos. Ora, aos olhos dos consumidores europeus
a carne impregnada de hormônios é uma calamidade.
Foram convocados os cientistas europeus. Todos eles afirmam que a carne bovina americana contêm seis hormônios perigosos (testosterona, progesterona, zeranol, trenbolone, acetato de malangesterol e sobretudo 17-beta-oestradol).
O mais curioso é que todos os cientistas norte-americanos chegam a resultados inteiramente contrários: Não, dizem eles, a carne com hormônios não apresenta o menor inconveniente.
(Neste ponto, uma questão subsidiária nos preocupa: serão os cientistas influenciados pela nação à qual pertencem? Os mesmos instrumentos de medição regirão de maneira diferente se forem acionados de um lado ou de outro do Oceano Atlântico? A ciência americana e a ciência européia seriam diferentes?) Este combate entre o boi e o roquefort é apenas uma simples escaramuça. Mas esta escaramuça mostra quanto é violenta a rivalidade entre produtores daqui e de lá, entre financistas da Europa e financistas dos Estados Unidos.
O negociador norte-americano na questão do boi, Peter Scher, não esconde que estas medidas têm o objetivo de maltratar os europeus para que estes "engulam" o boi com hormônios "Esperamos - declarou Scher - "que este processo (aumento brutal das taxas) faça mal à Europa".

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