Com três décadas de trabalho voltado à formação complementar de profissionais das mais diversas áreas, o curso de especialização em ensino de sociologia da UEL (Universidade Estadual de Londrina) vem rompendo fronteiras. Com uma nova turma de alunos prestes a dar início aos estudos, a maioria dos inscritos mora nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. O alcance veio através da tecnologia, com o ensino remoto, e também com a popularidade de um curso que é pioneiro no país.

Coordenador da especialização, Marco Rossi explica que o curso vem ganhando destaque, principalmente após a sociologia ter se tornado uma disciplina obrigatória na grade curricular do ensino médio em 2008. “Em termos regionais, além de pioneiro, o curso é um dos raros que investem na qualificação de professores de sociologia na modalidade lato sensu. No Brasil todo, se houver, há bem poucas experiências do mesmo tipo”, afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Especialização no ensino de sociologia da UEL amplia fronteiras
| Foto: Arquivo Pessoal

Por ser uma especialização lato sensu, ou seja, voltada para a aplicação prática da sociologia no mercado profissional, ela é para todos, independente da formação anterior. O professor detalha que, ao longo das últimas três décadas, o curso já recebeu profissionais formados em direito, jornalismo, serviço social, psicologia, entre outros. “Por causa de sua proposta transdisciplinar, e também em face de os professores do curso pesquisarem temas diversos, o curso abriga muitos desejos e se propõe a valorizar a multiplicidade das percepções de mundo”, afirma.

O curso tem oito disciplinas que são divididas em dois semestres letivos. Ao longo da especialização, os alunos montam seminários temáticos sobre sociologia, antropologia e ciência política, o que auxilia na preparação e no desenvolvimento do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Ele explica que, além das disciplinas específicas, outras buscam refletir sobre a sociedade contemporânea e seus desafios. “Há disciplinas sobre a questão do Estado, sobre movimentos sociais e cidadania, sobre a cultura neste mundo pós-moderno”, detalha.

O curso também ganhou atenção nacional nos últimos anos com a mudança para a modalidade remota durante a pandemia. “A turma que surgiu naquele momento trouxe alunos de todo o país, enriquecendo muito o debate e tornando as aulas uma verdadeira arena democrática de experiências. Percebemos, então, que um número expressivo de interessados estava fora de Londrina e do Paraná”, relata. Segundo Rossi, dos 44 candidatos aprovados para a próxima turma, que começa no início de agosto, mais da metade é das regiões Norte e Nordeste. Além disso, vários já são mestres e doutores em diversas áreas.

PENSAMENTO CRÍTICO

Já muito consagrada e aplaudida, a sociologia percorre agora caminhos difíceis em meio ao que o professor aponta como resultado de um “empobrecimento geral das ideias no país”. Na visão de Marco Rossi, a sociologia tem um papel fundamental no enfrentamento aos “adversários” do pensamento crítico. “A sociologia é necessária e inadiável. Sua presença no ensino médio e em toda a formação básica contribui para qualificar o debate público, arejar consciências e elaborar alternativas ao nosso “viver juntos”. Por tudo isso, compreensivelmente, é tão hostilizada pelos donos do poder”, opina.

Ao destacar a importância da sociologia na construção de um pensamento crítico, ele lamenta a redução da carga horária da disciplina para os estudantes das escolas públicas e critica a medida provisória decretada pelo ex-presidente Michel Temer, em que cada estado é responsável por criar disciplinas dentro dos chamados itinerários formativos. “A luta, portanto, continua. Existe a expectativa de uma nova recarga na presença das disciplinas de sociologia, filosofia e artes com as discussões em trâmite no Congresso Nacional. Uma questão vale a pena expor: por que essas disciplinas que tanto sensibilizam e aguçam o senso crítico são sempre as mais perseguidas? Todas as respostas levam a um desnudamento do poder”, esclarece.

Na contramão, a UEL decidiu posicionar a sociologia como uma disciplina obrigatória para todos os cursos na prova de conhecimentos específicos do vestibular. Para Rossi, o movimento é ousado e corretíssimo. “Além de persuadir escolas e secretarias de Educação a investir no ensino de sociologia, a medida qualifica os futuros universitários para um ambiente acadêmico mais democrático, diverso, desejoso de não apenas interpretar o mundo, mas também de transformá-lo”, afirma, complementando que o curso de especialização em ensino de sociologia quer ser um dos agentes desta grande transformação.

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