São Paulo, 06 (AE) - Especialistas evitam comentar qual seria o diagnóstico que explicaria o comportamento do estudante Mateus da Costa Meira. Só uma avaliação profissional detalhada vai indicar o que teria levado o rapaz a matar três pessoas e ferir cinco, disparando um tiro de cada vez de um submetralhadora comprada de um traficante de drogas. Meira já admitiu que era consumidor de cocaína. Se ficar provado que ele tinha algum transtorno mental, segundo os profissionais ouvidos pela reportagem, o uso de drogas teria sido capaz de desencadear a doença ou potencializá-la.
As doenças mentais mais frequentes são a esquizofrenia e o transtorno afetivo bipolar, antes denominado maníaco-depressivo. A esquizofrenia, psicose causada por transtorno da função do cérebro, ocorre em cerca de 1% da população, tendo em parte caráter hereditário. "Esse índice, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), repete-se em todos os países, independentemente das condições socioeconômicas", afirma o diretor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Wagner Gattaz.
Segundo Gattaz, a doença apresenta sintomas como delírios (o de perseguição é o mais comum) e alucinações auditivas ou visuais. "A pessoa tem a crença inabalável de que aquilo é real e não aceita uma argumentação lógica e concreta". Em geral, as vozes que os pacientes dizem ouvir são imperiosas: ditam ordens, não pedem. Pode haver ainda apatia, diminuição dos impulsos, da vontade e da afetividade. O psiquiatra alertou que o uso de drogas, como a cocaína, pode desencadear a doença ou potencializá-la, aumentando os riscos de atos de violência para os predispostos a cometê-los.
Segundo a coordenadora do Programa de Esquizofrenia da Unifesp-EPM, Ana Cristina Chaves, os mais afetados pelo transtorno são os jovens, com maior incidência nos homens entre 19 e 20 anos e nas mulheres em torno de 24 anos. "Ela é incapacitante e pode provocar alterações motoras, até deixar a pessoa catatônica". Ana Cristina explicou que a internação só é recomendável em casos extremos, como quando há risco de suicídio ou de o paciente atacar outras pessoas. "No geral, a doença é controlada com medicação, psicoterapia e um forte acompanhamento da família". Bipolar - Outro transtorno mental importante é o afetivo bipolar. Nesses casos há distúrbios de humor que podem alternar estados de depressão com excitação maníaca. Na depressão, que, segundo Gattaz, atinge cerca de 10% da população, há lentidão dos processos mentais, sensação de esgotamento físico, desânimo, aperto no peito (angústia), redução do apetite, da libido e um grande sentimento de inferioridade.
O psiquiatra cita entre outras doenças importantes os transtornos da personalidade, cujos pacientes têm características anti-sociais, dificuldades em seguir normas éticas e não reconhecem sentimentos de culpa e remorso. Esse perfil às vezes aparece em crimes. Para Gattaz, casos como o de Meira levantam a questão da necessidade do controle do comércio de armas e de campanhas contra as drogas e o álcool. "Na maioria das doenças mentais, o tratamento tem mostrado alto índice de sucesso terapêutico". (M.F.)

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