Especialistas pedem refeições em família
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de julho de 2006
Fernanda Aranda<br>Agência Estado 
Sao Paulo - Comidinha caseira, uma sobremesa deliciosa e todos os parentes reunidos em volta da mesa. Quase impossível de ser mantida, a tradicional refeição em família vem sendo engolida pelo corre-corre diário, principalmente nas grandes cidades. Apesar da falta de tempo, dos horários incompatíveis e de agendas sempre lotadas, o hábito não deveria ser tão esquecido pela população. É o que atesta uma pesquisa publicada recentemente pela Universidade de Colúmbia, dos Estados Unidos.
Segundo o estudo norte-americano, a incidência de depressão, tabagismo e notas baixas é muito menor em crianças que costumam comer junto com seus pais. Após dez anos de pesquisas, os profissionais descobriram que a comunidade latina que mora nos EUA é o grupo que mais conserva o ritual. De acordo com o estudo, metade dos jovens latinos, inclusive os brasileiros, almoçam ao jantam ao menos seis vezes por semana com a família.
Para a psicopedagoga Betina Serson, que já foi diretora da escola Keshet Child Development Center, em Washington, o jantar em família pode trazer vários benefícios. Faz toda a diferença, principalmente para a criança. O tempo familiar promove a aprendizagem de valores, dá segurança e aumenta a auto-estima. É uma excelente terapia, pois naturalmente os assuntos que envolvem a criança e o adolescente vêm à mesa e são debatidos sem hora marcada e sem a tensão típica de uma conversa formal entre pai e filho, analisa Betina.
Mesmo sem conhecer todas as vantagens que uma reunião gastronômica pode trazer, a dona de casa Ivonete Sarto Pereira, de 49 anos, exige há mais de duas décadas reunir os moradores da casa para o jantar. Ela garante que após a degustação de arroz, feijão e do bolinho de batata, iguaria que é sua especialidade, a recompensa é uma mesa farta de bons assuntos e conversas.
Falamos sobre tudo: política, futebol, religião... E sobra tempo até para discutir a novela. Diariamente, eu consigo juntar somente a minha filha Débora, meu neto Rafael e meu pai Laurindo. Mas no final de semana a turma toda vem para a minha casa, conta Ivonete.
A psicopedagoga Betina diz que a tradição da família Pereira poderia servir como exemplo para todo mundo. O momento da televisão desligada, sem acesso à internet e sem celular deveria fazer parte do cardápio de todos os jantares ou almoço. É uma ótima pedida e o resultado é a união da família, informa a especialista.
Pais que não conseguem preservar o hábito do jantar em família não precisam sentir culpa. A dica para quem só encontra os filhos aos finais de semana é otimizar o tempo e aproveitar cada segundo. A psicopedagoga Betina Serson diz que é possível cultivar uma boa relação familiar e preservar a saúde das crianças mesmo se os momentos em conjunto são muito escassos. Não se pode jogar toda a responsabilidade da falta de horários fixos nos pais. A rotina de trabalho da atualidade é muito severa e, por isso, é muito difícil manter as tradições familiares. É importante, então, esquematizar o dia para possibilitar os diálogos em casa. As conversas podem ser feitas, por exemplo, a caminho da escola, um pouco antes da hora de dormir ou em qualquer lugar em que a família fique reunida, mesmo que esse tempo seja curto, explica a especialista.


