São Paulo, 03 (AE) - O comportamento do índice de desemprego em 2000 causa polêmica entre especialistas em trabalho. O governo aposta numa redução de um ou dois pontos percentuais no índice calculado nas regiões metropolitanas pelo IBGE.
Mas o professor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) Márcio Pochmann lembra que em 1999 o desemprego chegará a 9,8% da população economicamente ativa (estimativa com base na PNAD/IBGE). Em 2000, calcula o economista, nada indica que a situação vá melhorar, por conta da chegada de 1,5 milhão de jovens ao mercado de trabalho, da queda da renda, que obriga mais gente a trabalhar, e do baixo crescimento econômico. Para ele, o índice de desocupação será de no mínimo 10%, caso a economia cresça os 4% prometidos pelo governo. Se o PIB crescer apenas 2%, o desemprego aumentaria para 10,4%.
Mas há quem acredite que o desemprego, se não cair, vai pelo menos parar de crescer tanto em 2000, rompendo o padrão dos anos 90 de grandes crises financeiras internacionais, de reestruturação de empresas e de automação em todos os setores da economia. O diretor-executivo da Fundação Seade, Pedro Paulo Martoni Branco, diz que tem esperança de que a pesquisa Seade-Dieese pare de registrar recordes no desemprego, como o de 20,3% da PEA da Grande São Paulo alcançado em abril e maio de 1999.
Em novembro, a pesquisa Seade-Dieese registrou desocupação de 18,6%, menos do que os 19% de outubro. Em dezembro, pode ter caído um pouco mais. Janeiro, fevereiro, março e abril são tradicionais meses de sazonalidade negativa para o emprego e assim o índice pode elevar-se novamente. Mas se o movimento de recordes cessar é provável que o desemprego médio de 2000 seja ligeiramente menor do que o de 99.
Variáveis - De modo geral, os economistas lembram que há outras variáveis influenciando o índice, além da capacidade da economia de oferecer empregos. A renda é uma delas. Quando a renda do trabalhador cai, o desemprego aumenta porque o índice é pressionado por maior número de pessoas procurando emprego - parceiros dos chefes de domicílio e filhos, por exemplo, saem em busca de complemento para o orçamento familiar.
Pochmann lembra da necessidade de retirar do mercado de trabalho nada menos que 2,8 milhões de crianças com menos de 14 anos, filhos de famílias miseráveis. Além deles, retirar também, por meio de políticas públicas mais generosas, os 5,3 milhões de aposentados e pensionistas que se mantêm na ativa por não conseguir viver apenas com a renda da Previdência Social. Por fim, existem hoje 3,4 milhões de pessoas com mais de um emprego, também por causa de renda insuficiente.
Ou seja, além de criar empregos, a economia precisa dar condições para que as pessoas saiam do mercado de trabalho e dêem lugar aos jovens. Contudo, diz Pochmann, as políticas públicas hoje apontam justamente para o caminho inverso, como no caso do aumento do tempo necessário para a aposentadoria.