Especialistas discutem a Velha e a Nova Economia18/Mar, 15:20 Por PAULO SOTERO, enviado especial Los Angeles, 18 (AE) - As tabelas e gráficos projetados em duas imensas telas iluminavam o salão principal do Hotel Beverly Hilton com as estatísticas da "nova economia". No fim do ano passado, a capitalização da Microsoft superava em cerca de 50% o valor das ações das dez empresas líderes do mercado em dezembro de 1989, informava um dos quadros. Outro mostrava que a Intel e a Microsoft, que em 1998 ficaram em 40.º e 109.º lugar em faturamento, respectivamente, na classificação das 500 maiores corporações industriais americanas da revista Fortune, fecharam o ano com valor de mercado oito vezes maior do que a General Motors e a Ford, as líderes absolutas da lista da Fortune. Uma tabela contrastava o ocaso das indústrias pesadas, que dominaram a "velha economia", com a pujança das novas empresas de tecnologia e de serviços. Espelhava a força por trás das mudanças qualitativas e quantitativas, que nos últimos 15 anos transformaram a estrutura, o funcionamento e as regras do processo de produção e distribuição de bens e serviços: No ano passado, entre as 100 ações mais valorizadas no mercado, 80 eram de empresas da nova economia e apenas 11 de indústrias tradicionais, como as petroleiras e as montadoras de automóveis. Com o Índice Nasdaq em disparada e o Dow Jones em queda, as notícias de Wall Street sublinhavam o tema da terceira Conferência Global do Milken Institute - o impacto da tecnologia nos negócios e na vida dos americanos - realizada na semana passada. "Será que estamos mesmo diante de uma nova economia, que continuará a crescer com inflação baixa, praticamente sem desemprego?", indagou Mike Milken, o ex-especulador de Wall Street e presidente do instituto. "O mundo já viu algo assim antes?" As respostas dos quatro senhores de cabelos entre brancos e grisalhos, todos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia que acompanhavam Milken no palco, podem ser resumidas em duas frases: sim, o mundo já viu transformação parecida com a atual, mais de uma vez; e é muito cedo para saber se estamos, de fato, numa nova economia. James M. Buchanan, professor da Universidade George Mason, que ganhou o Nobel em 1986, indicou que não vê diferenças substantivas entre a "velha" e a nova economia e disse que não há ainda dados suficientes para afirmar que há, de fato, uma mudança qualitativa. As oscilações do mercado e as disparidades no valor das ações de empresas novas e empresas tradicionais são segundo ele, "um sinal de que a economia não está em equilíbrio". Mas nenhum dos participantes da mesa redonda usou o termo "bolha" para descrever o atual desempenho da economia americana ou aventurou-se a fazer previsões sobre a longevidade do "boom". "Talvez estejamos diante de uma nova economia, mas a novidade não é uma coisa nova na economia", ponderou Kenneth Arrow, professor da Universidade de Stanford, ganhador do Nobel em 1972, provocando risos na platéia. "A invenção do telégrafo aboliu as distâncias, a invenção da caldeira a vapor e sua aplicação no transporte ferroviário também mudaram a estrutura e a qualidade da economia", lembrou. "Estamos melhorando, mas o avanço tecnológico em si não é novo." Arrow notou que entre a invenção da eletricidade e a transformação que sua aplicação produziu na indústria nos EUA se passaram cerca de 30 anos. Para ele, a economia dos EUA vive hoje o "período de digestão" das novas tecnologias e das mudanças que elas estão produzindo. Jerry J. Jasinowski, presidente da Associação Nacional da Indústria dos EUA (NAM), informou que, segundo estudo feito recentemente pela entidade, a esmagadora maioria das empresas associadas tem homepages, mas apenas como cartão de visita eletrônica. "Sessenta e oito por cento das nossas companhias não usam a Internet para fazer negócios de empresa a empresa, apenas 1% opera dessa forma, somente 5% usam a Internet para coordenar e controlar seus estoques e não mais do que 7% a utilizam para compras", disse. "Há muita hipérbole nessa história, assim como há muito potencial na aplicação dessas novas tecnologias." Há mudança, mas as estatísticas não provam nada porque podem ser usadas para demonstrar muita coisa, disse Lawrence R. Klein, professor da Universidade da Pensilvânia e ganhador do Nobel em 1980. "O aspecto mais importante da economia hoje é o crescimento da produtividade, que está certamente relacionado com as novas tecnologias de informação", disse. Ele assinalou também que a nova economia tende a produzir bens e serviços com maior valor agregado. Vencedor do Nobel em 1992, o professor da Universidade de Chicago e colunista da revista BusinessWeek, Gary Becker, lembrou, porém, que os EUA viveram, neste século, uma fase econômica dourada parecida com a atual. "Entre 1950 e 1973, tivemos também um período de forte crescimento da produtividade - 3% ao ano." Para Becker, o espírito empreendedor dos americanos e a flexibilidade das regras que afetam a economia, seja na tributação das empresas, seja no mercado de trabalho, explicam por que a revolução tecnológica que está por trás da atual prosperidade ocorreu nos EUA e não em outra nação industrializada. Dois outros fatores, segundo o economista, deixam os EUA em posição favorável para enfrentar os desafios da atual expansão. "O país é aberto a imigrantes e isso tem contribuído para atender à demanda crescente de mão-de-obra em todos os setores", disse.