Especialistas desconfiam da pressa na campanha contra o câncer uterino
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sexta-feira, 28 de agosto de 1998
Agência Folha 
O governo brasileiro queimou etapas para lançar neste ano a campanha nacional de prevenção ao câncer de colo de útero. A crítica foi feita por especialistas ouvidos pela reportagem no 17º Congresso Mundial de Câncer. Dois dos principais críticos da campanha do governo brasileiro são Anthony Miller e Danny Depetrillo, consultores do Viva Mulher, uma espécie de estudo-base para o lançamento da campanha, conduzido pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer).
Miller e Depetrillo afirmaram que é muito difícil - como planeja o governo - convocar 4 milhões de mulheres que nunca fizeram exame, colher material corretamente, dar resultados e acompanhar as pacientes. A campanha vai durar pouco mais de um mês. Isso tinha de ser feito em fases e com grupos menores, dando continuidade ao Viva Mulher. Estamos muito preocupados com essa campanha de massa, feita sem a nossa recomendação. Governos, às vezes, fazem coisas assim , disse Miller, consultor da Opas e membro da Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, órgão da Organização Mundial de Saúde.
O ex-presidente da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia, Hildoberto Oliveira, concorda que houve pressa no lançamento da campanha - possivelmente, por motivação política, nem que seja positiva, com o sentido de tentar fazer enquanto dá.
O governo lançou a campanha de massa (que começou no último dia 18 e vai até 19 de setembro) sem ter concluído o projeto-piloto realizado com o Viva Mulher. Esse programa, iniciado em 1997, previa fazer 500 mil exames em cinco cidades brasileiras até o fim de 1998. No ano que vem, o programa seria reavaliado e seriam feitos novos estudos regionais. Não havia planos para uma campanha de massa.
O Ministério da Saúde disse que terá plenas condições de finalizar todas as etapas do programa de prevenção do câncer de colo do útero. Esse é um programa que tem começo, meio e só não tem fim porque pretendemos continuar , afirma Paulo Kalume, do Programa Nacional de Combate ao Câncer de Colo Uterino.
Kalume disse que cerca de 750 técnicos foram treinados para fazer a coleta e que, nesta semana, o ministério começou a treinar médicos para fazer o tratamento. Ele afirmou que não tem conhecimento de nenhum relatório da Opas que teria sido enviado ao ministério com críticas à campanha. Segundo ele, o ministério conhece muito mais a nossa realidade do que eles (os especialistas estrangeiros) .
Pelas estimativas do Instituto Nacional de Câncer, o câncer no colo do útero deverá causar a morte de cerca de 7.000 brasileiras neste ano - há 14 milhões na faixa de risco, entre 35 e 49 anos. Ele é o segundo que mais mata mulheres, perdendo apenas para o câncer de mama. Os sintomas só surgem quando a doença já está em estágio avançado, mas o papanicolau - exame simples, feito no consultório, retirando material do útero para análise - pode detectá-la antes.


