Especialistas definem as prioridades de conservação na zona costeira e mar
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quinta-feira, 28 de outubro de 1999
Por Liana John 
Porto Seguro, 29 (AE) - O Brasil tem quase 8 mil quilômetros lineares de litoral, 4,5 milhões de quilômetros quadrados de mar, e mais de 70% de sua população na zona costeira. Mas ainda é um país voltado para o continente, de costas para os recursos litorâneos e marinhos. O oceano lhe serve, basicamente, como depósito de lixo e corredor de passagem. É por isso que os 170 especialistas, reunidos há uma semana em Porto Seguro (BA), tiveram alguma dificuldade em estabelecer as prioridades de conservação para a zona costeira e o mar, num workshop promovido pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), e organizado pela entidade não-governamental Bio Rio.
A missão dos especialistas era delimitar as áreas mais importantes, em termos de biodiversidade, e as ações mais urgentes para sua conservação. Uma missão espinhosa, dada a generalização de problemas graves como poluição direta (portos, cidades e indústrias à beira mar) e indireta (trazida pelos rios); especulação imobiliária; turismo predatório; impactos ambientais de estradas e construções; aterro de mangues; retirada de vegetação nativa, alteração do fluxo das águas por marinas e portos, entre outros. Mesmo com dificuldade, conseguiu-se estabelecer 32 áreas costeira e cinco marinhas de altíssima prioridade, 28 de alta relevância e 13 de importância biológica, mais cinco áreas prioritárias para pesquisas. Recomendações - As áreas mais impactadas pelo homem são as baías e estuários, justamente onde a circulação de água é menor e os impactos das atividades humanas mais concentrados. Além de investir no saneamento básico das cidades litorâneas e no controle das indústrias, os especialistas recomendaram a criação de normas ambientais para a construção de portos e marinas, que podem mudar a dinâmica de sedimentação e erosão marinha, alterando a fisionomia da costa.
O ordenamento do turismo em pólos, a normatização da maricultura e da coleta de organismos marinhos, além de um inventário de "boas práticas" e o incremento da educação ambiental foram outras recomendações. No balanço entre as unidades de conservação existentes e necessárias, verificou-se que alguns ecossistemas - como a costa de manguezais do Amapá, os recifes de coral do Nordeste, as restingas da Bahia, os bancos de algas calcáreas do Espírito Santo e muitas ilhas do Sudeste e Sul - encontram-se pouco protegidos.
Os parques e reservas também tendem a proteger melhor a parte terrestre, deixando de fora a biodiversidade marinha, que pede normas específicas. Normas que considerem, por exemplo, mobilidade da fauna e flora, marés, sazonalidade e migração. "Ao lado de medidas de controle, entretanto, este workshop apontou possibilidades de aproveitamento de recursos inexplorados ou subexplorados, que podem incrementar o desenvolvimento sustentável", observou Bráulio Dias, do MMA.
Algumas espécies de peixes e crustáceos - entre elas as sardinhas e diversas arraias, tubarões e cações - precisam de mais defesos e até de zonas de exclusão de pesca para se recuperarem. Mas outras - como o caranguejo vermelho de profundidade e o peixe batata ou diversos tipos de plantas como as algas - são desconhecidas e poderiam render milhões, se racionalmente exploradas.


