Curitiba - O Brasil tem um modelo tecnocrata de parto, utilizando tecnologia mesmo quando ela não é necessária e, por isso, em alguns hospitais o índice de cesarianas ainda chega a 90% dos nascimentos. A constatação é da antropóloga americana Robbie Davis Floyd, que participou ontem em Curitiba do Simpósio sobre Humanização e Ritualística do Parto, durante o II Encontro dos Comitês de Prevenção da Mortalidade Materna e Infantil. Segundo ela, os países em desenvolvimento copiam o modelo norte-americano exagerando em procedimentos como cesariana, episiotomia (corte na vagina) e ecografias, o que é um erro.
A antropóloga viaja pelo mundo aprendendo sobre o paradigma cultural dos partos. Sua pesquisa começou a partir de um grupo de 100 mulheres americanas que relataram sua experiência de parto, além de 50 médicos e parteiras profissionais do México, Estados Unidos e Canadá. Segundo ela, os procedimentos adotados no parto de hospital refletem os valores culturais de sociedades organizadas em função do desenvolvimento, avanço tecnológico e globalização da informação. ''A cesária é um parto para cima. Uma referência à cultura de transpassar os limites da natureza, como a lei da gravidade, assim como fazemos com os aviões'', analisa.
A pressa e o controle total do médico sobre o processo natural do nascimento também seriam características desse paradigma cultural. Qualquer tipo de intervenção, segundo a pesquisadora, deve ser feito apenas em caso de necessidade. ''Fora desse modelo, o parto é a espera do processo natural. A mulher deve caminhar, beber água, mover-se e dar à luz em posição vertical'', diz Robbie. Mas isso, segundo a pesquisadora, implicaria numa importante mudança de status para o médico, que ficaria numa posição abaixo da mulher em trabalho de parto.
Médicos obstetras e enfermeiras das 22 regionais da Secretaria de Saúde participaram do simpósio que pretendia informar gestores de saúde e a população sobre a importância do parto humanizado. O incentivo ao parto natural foi feito também através de depoimentos de casais que passaram pela experiência recentemente.
Glicimar Bueno e Maciel Pauluk foram contar a experiência do nascimento do bebê João Pedro, nascido em parto natural no mês de maio. O casal optou por um parto o mais natural possível e se apresentou na maternidade com uma carta da médica Rose Fischer pedindo atenção especial às solicitações da gestante. Glicimar não quis fazer lavagem intestinal, nem tricotomia (raspagem dos pêlos na região pubiana).
A médica acompanhou pessoalmente as 13 horas de trabalho de parto na maternidade e a mulher também pôde ter a presença do marido o tempo todo. Na hora do parto, a equipe da maternidade não participou, ficando apenas a médica e o marido da paciente. E para evitar o uso do fórceps, a médica teria orientado Glicimar a fazer movimentos circulares com a cintura, o que ajeitou o bebê para nascer mais facilmente.
Maciel Pauluk, que é médico e já havia feito três partos sem ter se emocionado, disse que o nascimento de João Pedro foi o momento mais tocante de sua vida.

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