Especialistas apontam para a redução do assistencialismo
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000
Por Déborah Kanarek 
São Paulo, 17 (AE) - A solidariedade no Brasil ainda tem características assistencialistas, concordam até os mais entusiastas. "Dá-se o peixe e não se ensina a pescar", diz o publicitário Percival Caropreso, do Grupo McCan, que, no entanto
acredita que isso está mudando, principalmente por causa da globalização, responsável pela disseminação de valores culturais que apreciam a responsabilidade social.
A forma pela qual a região (América Latina) foi colonizada é apontada por Caropreso como um dos principais fatores. Para ilustrar, faz uma brincadeira. Pergunta qual é a diferença da colonização norte-americana e da latina. "É o L, responde. Lá, os ingleses estavam em busca de God (Deus em inglês) e aqui, os colonizadores foram apenas atrás de gold (ouro). E prossegue: os ingleses chegavam em um local, construíam uma igreja, um galpão e uma escola e iam logo rezar uma missa", diz.
"Os portugueses não davam tanto valor ao espírito comunitário. Extraíram e exportaram do pau-brasil ao ouro. Até hoje, culturalmente o americano é mais voltado para a comunidade". E compara: nos EUA, por exemplo, os pais atuam como co-gestores das escolas, e se não gostam de algo, organizam-se para fazer mudanças. O brasileiro está mais acostumado a transferir a responsabilidade. Se a escola não é boa ou não tem vagas, a culpa logo é atribuida às autoridades e dificilmente há uma mobilização comunitária. Crescimento - Na avaliação da advogada Maria Nazaré Lins Barbosa
consultora em direito do terceiro setor, este é um mercado que cresce proporcionalmente muito mais do que a população, principalmente depois da explosão iniciada na década de 80. Pesquisas do IBGE indicam que a população ocupada no terceiro setor cresceu de 775.384 em 91 para 1.119.533 em 95, ou seja 44 35%. No mesmo período, a população ocupada cresceu apenas 19%.
Maria Nazaré avalia que a preocupação com a assistência social cresceu com a redemocratização do País e concorda que o assistencialismo está cedendo espaço aos projetos auto-sustentáveis. Segundo Nazaré, que defendeu uma tese sobre o assunto na FGV, existem 28 mil ongs registradas no município de São Paulo. O número é impreciso, pois não há controle da taxa de mortalidade das entidades. Em todo o País devem existir cerca de 200 mil.
Há uma tendência de diversificação do terceiro setor, relata. Tendo atuado durante a década de 80 principalmente na área ecológica, está se expandindo para promoção do voluntariado
defesa dos direitos humanos, educação, saúde e assistência. No Brasil sempre se fez muita assistência de maneira informal, de forma aleatória e pouco profissional, diz a advogada. Apesar de não ter o hábito de participar de trabalhos voluntários, o espírito solidário do brasileiro fica evidenciado quando se fazem campanhas como a contra a fome, por exemplo.
A advogada presta consultoria sobre o funcionamento de organizações não-governamentais, seus aspectos fiscais e orienta sobre relações de trabalho e convênios das entidades com o poder público. Ela observa que até 95 os incentivos sociais eram maiores. Mas foram cortados depois que a CPI do Orçamento apurou que havia irregularidades no setor, escândalo que ficou conhecido como "pilantropia".
As distorções são alvo de críticas. "O incentivo mais inteligente seria o abatimento total da doação do imposto para pessoas físicas e jurídicas que contribuissem com qualquer entidade". Atualmente só podem contar com incentivos aquelas de reconhecida utilidade pelo governo federal.


