São Paulo, 08 (AE) - O critério de ordem de chegada para a composição da lista única de espera por transplantes de fígado está causando polêmica entre os especialistas em hepatologia. Os altos índices de mortalidade entre os pacientes que aguardam pela cirurgia - em torno de 40% - são a justificativa usada pelo presidente da Sociedade Paulista para o Estudo do Fígado, Hoel Sette Júnior, para afirmar que o melhor critério de composição da lista seria a gravidade dos casos.
A questão ganhou destaque depois da cassação da liminar que garantia a um paciente de Sette o direito de prioridade em relação aos demais da lista de espera. O paciente, o marinheiro João Fraga da Silva, de 55 anos, internado no Hospital Albert Einstein, sofre com uma cirrose em estado avançado causada por hepatite C.
Apenas os casos de deficiência hepática aguda ou necessidade de novo transplante por causa de rejeição são considerados prioritários, segundo a portaria do Ministério da Saúde que regulamenta os critérios usados pelas centrais de transplantes. O diretor da central do Estado de São Paulo, Augusto Pereira, diz que essa é uma definição técnica e deve ser seguida. "Com certeza há outros pacientes com o mesmo quadro na fila", afirmou Pereira. "É uma questão de respeitar os outros pacientes."
Mesmo assim, Hoel Sette acredita que o critério de ordem de chegada e a inexistência de critérios mínimos para inclusão na lista não priorizam o paciente. "Se num acidente com um ônibus os primeiros a serem atendidos são aqueles com traumas graves, por que doentes que poderiam esperar acabam sendo transplantados antes?", questiona.
Gravidade - Segundo Sette, a adoção do critério de gravidade é responsável pelo baixo índice de 13% de mortalidade entre pacientes que aguardam um novo órgão nos Estados Unidos. O hepatologista ainda afirma que a lei federal permite a criação de novos critérios médicos para a ordenação em nível estadual.
Pereira diz que a Secretaria Estadual da Saúde não pode mudar a legislação. "Além de tudo, funcionamos há muito pouco tempo (dois anos e meio) para rediscutir e mudar os critérios", diz.
Integrante da Comissão de Transplantes de órgãos e tecidos do Hospital das Clínicas de São Paulo, o médico Sérgio Mier diz que a lista de espera centralizada e pública solucionou problemas na área. "Foi a melhor maneira de impedir que o poder financeiro ou político definissem para quem iria um órgão disponível", justificou.
Para Mier, a ordem de chegada é o melhor critério para o funcionamento das centrais de órgãos. O Hospital das Clínicas é responsável por cerca de 45% dos pedidos de inclusão de doentes na lista para transplantes de fígado. Exatamente na mesma proporção, a instituição recebe órgãos da central.
Augusto Pereira diz que essa correlação entre os índices de requisições e atendimentos indicam o modo justo e correto de funcionamento da lista centralizada. "A distribuição é perfeitamente homogênea", afirmou.
Córnea - A partir de maio, as pessoas que aguardam transplante de córnea também terão uma lista única estadual. Até o dia 30 de abril, as instituições devem encaminhar suas listagens para a Secretaria Estadual da Saúde.

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