Especialista prevê recuperação de preços das commodities
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terça-feira, 27 de abril de 1999
Por Kelly Lima 
Ribeirão Preto (SP), 28 (AE) - Os preços agrícolas deverão reverter a tendência de queda no segundo semestre deste ano, disse o economista da Fipe/USP, Fernando Homem de Melo, durante sua palestra sobre o impacto da desvalorização na agricultura, no estande da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) na Agrishow99. Para ele, os preços das principais commodities que apresentaram queda em dólar este ano, como açúcar e café, atingiram o "fundo o poço".
"O segundo semestre deste ano pode ser chamado de divisor de águas. É a partir de agosto que vamos realmente sentir o impacto da desvalorização nas principais culturas", afirmou.
Em sua opinião, as culturas favorecidas pela desvalorização continuam sendo, pelo menos este ano, o café, a cana, a laranja e o cacau, porque são altamente comercializados no mercado externo sem que necessitem de insumos importados. A soja e o tomate são o caso inverso, que serão prejudicados pela desvalorização por causa da alta nos custos.
O economista da Fipe/USP disse ainda que um dos produtos nacionais que mais deverá ser favorecido pela desvalorização do real a partir do segundo semestre é o leite.
Segundo ele, o produto que vinha sofrendo perdas no mercado interno devido à importação do leite da Argentina, deverá ter um crescimento na produção por conta da suspensão de contratos fechado pelas indústrias nacionais junto a produtores argentinos.
"O produtor de leite ainda não teve como sentir este impacto da desvalorização porque ainda existiam contratos pendentes. Como estão vencendo, ficará praticamente inviável fechar novos com o câmbio cotado a R$ 1,70, em média", acredita.
Por outro lado, ele lembra que a Argentina está ativando um sistema de defesa: "Para não perder mercado, o governo argentino já aprovou um novo subsídio de 10% sobre o preço do leite para a exportação e isso deve colocá-lo em condições de concorrer novamente com o produto nacional", alertou.
Para Homem de Melo, o preço mundial do açúcar é um caso à parte na recuperação dos preços agrícolas mundiais, pois depende diretamente de uma ação do governo sobre os estoques de álcool. Ele defende o estímulo ao carro a álcool para diminuir os estoques e assim impedir que os produtores continuem destinando a maior parte da cana para a produção de açúcar.
"Não há como elevar em quase 30% o volume de produção de açúcar no Brasil sem afetar o preço mundial", comentou.
Crédito - O economista defendeu que o governo agilize uma política de desenvolvimento agrícola, com a criação de "linhas de crédito com regras mais definidas". "A desvalorização não é a panacéia da agricultura brasileira", alertou.
Segundo ele, o governo venceu apenas o primeiro de quatro desafios que tinha pela frente em 94: a inflação. Os próximos três desafios seriam reduzir ainda mais os juros, fazer a reforma tributária e criar especificamente uma nova linha de crédito agrícola.
"O Brasil também precisa redefinir o seu lugar no comércio mundial de produtos agrícolas, revendo a forte redução das tarifas de importação e criando uma frente para combater os subsídios vergonhosos que a Europa oferece sobre seus próprios produtos", afirmou.


