Especialista em maconha medicinal é intimado a depor por apologia às drogas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Mariana Zylberkan<br>Folhapress 
São Paulo - Há 50 anos à frente de pesquisas sobre os efeitos medicinais da maconha, o professor emérito da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Elisaldo Carlini, 88, conta que levou um susto quando foi intimado a depor no 16º DP(Vila Clementino) na quarta-feira (21) por apologia às drogas. "Fiquei muito surpreso porque estou com 88 anos,falei minha vida toda sobre maconha e agora que me descobriram? No momento em que a maconha está reconhecida no mundo como medicamento?", questionou.
Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo, em 1957, Carlini se tornou internacionalmente conhecido por se dedicar às pesquisas sobre drogas medicinais à base de Cannabis sativa, a princípio ativo da maconha.
A intimação para depor foi baseada em um simpósio sobre o uso terapêutico da maconha organizado por Carlini em maio do ano passado. Na programação, a mesa intitulada "Maconha e Filosofia" chamou atenção das autoridades.
Entre cientistas e professores universitários, o simpósio convidou Geraldo Antônio Baptista, o Ras Geraldinho, fundador da primeira igreja rastafári no Brasil, para participar do debate sobre "Maconha e Filosofia". "Fomos ouvir outros saberes. Queríamos ouvir a experiência de alguém que tivesse sofrido as penalidades da lei por portar maconha e os danos que isso trouxe", disse o especialista.
Por estar preso cumprindo pena de 14 anos por plantar maconha na sede da igreja, em Americana (SP), Ras Geraldinho conseguiu participar do encontro graças ao indulto do Dia das Mães. A programação teve início poucos dias antes da data comemorativa, em São Paulo. "Pedimos ao juiz para antecipar em algumas horas sua saída da prisão para integrar a mesa, mas não tivemos nenhuma resposta", lembra o professor.
Para ele, a intimação foi consequência direta desse pedido. "Não sei o juiz que pode ter pedido ao delegado para colher meu depoimento, mas acredito que seja um magistrado que segue muito rigorosamente as leis do país. Quero lamentar sua falta de entendimento por nunca ter participado de uma palestra sobre liberação da maconha para fins medicinais."
Carlini agora aguarda decisão judicial sobre a instauração de inquérito. "Foi uma experiência valiosa. Depois disso, fiquei com dó, não de mim, mas da ciência do meu país. Esse fato só mostra como a lei que proíbe o uso medicinal da maconha é inócua, estamos vivendo no século passado."
REPERCUSSÃO
A notícia de que o professor tinha sido intimado a depor em uma delegacia por apologia às drogas motivou entidades médicas e científicas a publicar notas de repúdio. Em nota, a Unifesp, onde Carlini integra o quadro de professores eméritos, manifestou preocupação e reforçou seu apoio ao pesquisador. "A universidade defende a democracia, em um momento no qual as universidades públicas, que desenvolvem pesquisa de qualidade, lutam para continuar realizando ciência e formação, além de projetos sociais."
A ABC (Academia Brasileira de Ciência), a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) também se manifestaram contrárias à intimação. "Elisaldo Carlini é imprescindível e sua carreira é uma apologia à vida", escreveu em nota conjunta a ABC e a SBPC.


