Especialista desvenda os segredos do sexo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de maio de 2004
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Na época do namoro, uma vontade irresistível de ficar junto, um desejo recíproco facilmente percebível por quem está de fora. Após alguns anos de casamento, o temido distanciamento, como se os sentimentos tivessem ''esfriado''. Será possível fugir deste destino, que atinge impiedosamente a maioria dos casais?
O médico londrinense Calvino Coutinho Fernandes, especialista em sexologia e pós-graduado em ginecologia e obstetrícia, garante que sim. Amanhã ele lança o livro ''O Cristão e o Prazer Sexual''. Mais do que esclarecer dúvidas, desmitifica o que define como ''uma experiência maravilhosa, que injeta sangue novo nas artérias esclerosadas da rotina e sacia sem economia aqueles que se amam''.
O livro responde, em suas 130 páginas, às principais perguntas feitas por pacientes no consultório e por ouvintes de duas rádios londrinenses, durante programas que o médico participa semanalmente. Fernandes afirma, na introdução, que o objetivo do trabalho foi levantar as principais questões sexuais que causam inquietações para o casal. Em oito capítulos, ele aborda didaticamente temas como disfunções do orgasmo, distúrbios da ejaculação, disfunção erétil e deficiência física e sexualidade.
Segundo Fernandes, a população moderna sofre de uma série de disfunções sexuais. O médico informa que há no Brasil aproximadamente 10 milhões de homens com disfunção erétil e um número próximo a isso de homens com ejaculação prematura. Em torno de 20 a 30% das mulheres brasileiras não chegam ao orgasmo e cerca de 30% das mulheres apresentam alguma disfunção sexual. ''Isso, somado à dificuldade de relacionamento entre homem e mulher, tem um resultado não muito promissor para a sexualidade do casal moderno.''
O fim da atração entre o casal com o passar dos anos tem como uma das causas o medo da intimidade, que está relacionado ao temor de não ser aprovado física ou emocionalmente pelo outro. ''Nossa sociedade é extremamente exigente e criadora de estereótipos, levando as pessoas a terem uma preocupação excessiva em ser o objeto perfeito para a satisfação do outro. Na verdade o relacionamento bom não é nada disso, e sim cada qual conhecer e aceitar a imperfeição do outro.''
O médico, atualmente delegado da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana em Londrina, também põe o dedo de uma das principais feridas ligadas ao tema: a moralidade imposta pela Igreja desde o início da nossa era, pregando, durante séculos, que o sexo deve ter a finalidade única da reprodução. Segundo ele, a Bíblia é muito clara em se referir ao sexo como algo prazeroso, e não simplesmente para reprodução.
''É como se todos nós fôssemos uma linha de montagem, onde por um lado entram os espermatozóides e óvulos e por outro saem bebês em série'', compara Fernandes. Ele admite que parece estranho falarmos deste conceito nos dias de hoje, mas afirma que isso ainda pesa muito na sexualidade dos casais. ''Muitos ainda relacionam sexo com culpa, pecado e medo'', diz, citando os equívocos na interpretação da palavra de Deus em relação ao sexo, cometidos por autores como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho.
Os problemas relacionados à sexualidade nos dias de hoje também têm como causa a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres. Embora elas tenham se emancipado e disputem o mercado de trabalho de igual para igual com o homem, ainda convivem, segundo o médico, com bloqueios inconscientes e históricos, que interferem muito na hora de se relacionar com o parceiro.
''A disputa com o homem fez a mulher compartilhar também das mesmas toxicidades, dos riscos da bebida, do estresse da rotina de trabalho, passando a levar para casa toda esta carga.'' O médico explica que as estatísticas provam que a mulher moderna tem duas vezes mais problemas de desejo que a mulher que não entrou ativamente no campo de trabalho masculino.
A competição acirrada no trabalho também influencia o desejo dos homens, mas de forma menos intensa.''As mulheres têm mais problemas que os homens e isso pode ser explicado pelo fato delas serem mais suscetíveis à interferência dos fatores externos. É mais fácil para o homem se desligar das dificuldades do trabalho quando está na cama do que uma mulher. As mulheres casam porque querem, em primeiro lugar, romance e proteção. Já os homens dão importância em primeiro lugar ao sexo, e em segundo às questões ligadas à afetividade.


