Não é só o gelo ártico que está derretendo, como anunciado no último dia 18 de agosto por cientistas americanos que viajaram ao Pólo Norte a bordo do quebra-gelo russo Yamal. Segundo um alerta publicado por Lester R. Brown, do Worldwatch Institute, o mundo também está perdendo o gelo da Antártida e das principais geleiras dos Alpes, Andes, Himalaia e das Montanhas Rochosas. Apenas a Groenlândia vem acumulando gelo nos topos de suas montanhas mais altas, embora tal ganho mal compense as perdas nas baixas altitudes, no recortado litoral groelandês.
Em meados de agosto, os passageiros do Yamal encontraram uma passagem de 1,6km de largura bem no Pólo Norte, onde em 1994 o mesmo quebra-gelo havia enfrentado gelo de 1,8 a 2,7 metros de espessura. Na ‘‘lagoa’’ degelada em pleno Ártico, o pesquisador James J. McCarthy, da Universidade de Harvard, notou desenvolvimento de plâncton, sinal de que o gelo já se encontrava derretido há um certo tempo.
Este derretimento de geleiras, antes consideradas ‘‘eternas’’, não é apenas o maior indício de que os efeitos desastrosos das mudanças climáticas começam a ser mensuráveis. É também um sinal para os cientistas reverem suas teorias de ‘‘gatilho’’. Em outras palavras, o derretimento do gelo não só está associado ao aumento médio do nível dos oceanos - que já subiu 30 centímetros, no último século - como pode ‘‘disparar’’ outros desastres ambientais de grandes proporções.
Conforme Lester Brown, o derretimento massivo do gelo no Himalaia, por exemplo, afetará o suprimento de água da maior parte da Ásia, sobretudo Índia, Paquistão, Bangladesh, TailândiaVietnã e China. Estes países são abastecidos por rios - Ganges, Mecong, Yangtse, Amarelo - que dependem da água acumulada como neve no alto das montanhas, e de seu lento derreter durante o verão. O derretimento massivo do gelo ‘‘eterno’’ contribui para o aumento da temperatura atmosférica média e este aumento - de 1 ou 2 graus Celsius apenas - altera o ciclo das águas, produzindo mais chuvas e menos neve no inverno. Com maior volume de água disponível, ocorrem mais enchentes durante o inverno e se reduz a disponibilidade de água de abastecimento na estação seca.
Outro tipo de ‘‘gatilho’’ volta a ser mais bem discutido diante dos novos dados sobre o derretimento do gelo ‘‘eterno’’: o deslocamento das geleiras para os oceanos. Com o derretimento da base das montanhas ou da base de imensas geleiras antártidas, que ‘‘correm’’ como rios congelados de grandes altitudes até o nível do mar, boa parte do gelo estocado sobre os continentes pode escorregar para dentro dos oceanos, aumentando repentinamente o nível destes, como uma pedra de gelo faz transbordar um copo cheio de água.

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