Escolha de Tápias não resolve dilema da política econômica
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quarta-feira, 08 de setembro de 1999
Por Ariosto Teixeira 
Brasília, 9 (AE) - A designação do empresário Alcides Tápias para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior está ainda longe de representar uma solução para o principal dilema da política econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em primeiro lugar, porque a queda do ministro Clóvis Carvalho congelou a idéia de que seria possível combinar a ênfase no equilíbrio fiscal do modelo conduzido pelo ministro Pedro Malan com uma atuação mais agressiva do Estado como indutor da atividade econômica. E em segundo, porque o ministro da Fazenda se fortaleceu como líder de um programa que não admite divergências conceituais ou práticas.
O cenário resultante do episódio cujo desfecho será ascensão de Tápias tem, por um lado, um ministro forte, e isso inibe a atuação dos demais ministros e enfraquece o governo como um todo; e por outro, restringe a aposta presidencial no pensamento único de que nada há a fazer antes que se complete o programa de ajuste fiscal. O risco que o governo corre é o da instabilidade política.
O sinal evidente disso é o fato de que, ao mesmo tempo em que se fortaleceu, Malan, paradoxalmente, ficou também mais vulnerável. São sintomáticos os comentários palacianos de que ele "ganhou mais responsabilidade" e carta branca para obter resultados a curtíssimo prazo. Por curtíssimo prazo deve-se entender os três meses mencionados pelo senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA).
O governo, Malan e o presidente devem se preparar, além disso, para surpresas na convivência com o novo ministro do Desenvolvimento. Tápias é visto como um executivo eficiente, que sabe comandar e sempre trabalhou com equipes, mas que curiosamente chegará ao governo sem séquito, com um assessor apenas.
Para facilitar a chegada de Tápias, o presidente insistiu com Milton Seligman, que conhece e lida bem com a máquina estatal, para que permaneça na Secretaria Executiva. Trata-se, além disso, segundo pessoas que conviveram profissionalmente com Tápias, de uma personalidade impaciente, sobretudo com as dificuldades criadas por todo tipo de políticas corporativas e burocráticas.
Tão impaciente que ele se demitiu do Bradesco ao mínimo sinal de que malograra a sua estratégia para chegar à presidência do banco, depois de passar pela presidência da poderosa Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). E paciência é, talvez, a virtude crucial exigida dos que anseiam por ver o País reposto nos trilhos do crescimento econômico.
Consciência - O ex-ministro Carvalho perdeu o cargo conscientemente. Ele estabelecera dois objetivos: desconstruir a imagem de burocrata insensível que ganhara na chefia da Casa Civil, cujo papel era servir de filtro e escudo do presidente da República, e definir o papel que ele e a pasta do Desenvolvimento teriam no governo. Não aceitaria papel de subalterno ou a qualificação de ministro ineficiente.
Ele estava pessoalmente orientado para exercer papel decisivo no relançamento da economia ou, então, deixar o governo caso tal propósito se mostrasse inviável, como afinal aconteceu. Não seria, definitivamente, um novo Celso Lafer, o antecessor demitido com fama de complacente.
O ex-ministro não escreveu, nem fez um discurso ingênuo. O presidente foi previamente informado. Seu assessor especial e ex-ministro de Assuntos Institucionais, Eduardo Graef, leu na véspera as três versões do discurso mandadas preparar por Carvalho: uma neutra e burocrática; outra moderada; e uma terceira agressiva, que prevaleceu.
Às 22h30 de quarta-feira, dia 1º, ele foi ao Palácio da Alvorada e deu pessoalmente conhecimento da linha política e do tom do discurso ao presidente da República. O ex-ministro discutiu o uso da palavra "covardia" com a sua assessoria e decidiu mantê-la. Mas, cuidadoso, numerou os 24 parágrafos do texto, deixando aberta a hipótese de saltar os que julgasse menos apropriados. Por isso pediu para falar depois de Malan.
Definida a demissão, o presidente pediu que Carvalho sugerisse nomes para substituí-lo. "Acho que o senhor deveria nomear o Amaury Bier", respondeu o ex-ministro. Diante do espanto de Fernando Henrique (Bier é o secretário-executivo da Fazenda e o segundo de Malan), ele acrescentou, com uma ponta de ironia: "O Edward Amadeo e o Sérgio Werlang (respectivamente, o secretário de Política Econômica da Fazenda e o diretor de Política Econômica do Banco Central) também seriam ótimos".
Ambos são técnicos rigorosamente alinhados com a política do ministro Malan. Para o presidente, as sugestões significariam o fechamento do ministério. "Talvez essa fosse a melhor solução", encerrou Carvalho, descrente na hipótese de convivência conjuntural pacífica entre as duas pastas.


