Brasília, 19 (AE) - A promoção do senador Fernando Bezerra (PMDB-RN) a líder do governo no Senado tem duplo simbolismo, na medida em que, simultaneamente, o presidente Fernando Henrique Cardoso valoriza a participação do PMDB na aliança partidária que o apóia e entrega o cargo a um legítimo representante do setor industrial privado. O senador Bezerra já tinha papel de relevo na Casa na condição de presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), da qual se demitirá, mas é no exercício da presidência da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que ele tem se destacado no cenário político.
Com a definição, o presidente da República preenche com atraso de mais de quatro meses uma lacuna na intermediação de seu governo com o Senado Federal, aberta desde a posse do ex-senador Élcio Alvares (PFL-Es) como ministro Extraordinário da Defesa. À falta do líder se atribui grande parte da instabilidade no convívio político com os senadores nos últimos meses, cuja consequência prática mais evidente foi a criação da CPI do Sistema Financeiro por iniciativa do presidente nacional e líder da bancada do PMDB, Jáder Barbalho (PA). O gesto de Fernando Henrique confirma a mudança qualitativa que vem se operando no cenário político. A escolha do líder do governo é naturalmente uma prerrogativa do presidente, que dispõe para isso do nome de todos os senadores pertencentes aos partidos da sua aliança. A nomeação de Fernando Bezerra deu-se, entretanto, depois de um período de sondagens que gerou descontentamentos e um ambiente propício até mesmo a vetos a nomes que supostamente o presidente se dispunha a nomear.
Apesar de ter sido apoiado por Jáder Barbalho, o senador Ney Suassuna (PMDB-PB) teria sido vetado pelo presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que teve uma briga de que todos se lembram com Suassuna. Da mesma forma, insinua-se nos bastidores que o líder do PMDB teria vetado a opção de Fernando Henrique pelo senador gáucho José Fogaça (PMDB-RS), que contava com o entusiasmo de Antônio Carlos Magalhães e chegou a ter duas ou três conversas sobre o assunto com o articulador político do governo, ministro Pimenta da Veiga.
FHC- O ambiente hostil contra o governo gerado no Congresso pela CPI dos Bancos chegou a fazer com que o presidente mudasse a sua inclinação por Fernando Bezerra para ser seu líder no Senado e pensasse em um nome do PSDB, como foi o caso de Paulo Hartung (ES), que chegou a ser convidado apesar da sua escassa experiência no Senado. Das conversas sobre a opção tucana surgiu a alternativa do senador Gerson Camata (PMDB-ES), outro capixaba como Hartung e Élcio álvares, que porém não se sentiu suficientemente estimulado em seu partido a aceitar a nomeação. O nome de Bezerra se firmou depois dos movimentos de reaproximação e estreitamento dos compromissos do PMDB com o presidente realizados na semana passada por iniciativa, sobretudo, do ministro da Saúde, José Serra, e do próprio Fernando Henrique, que recebeu no Palácio da Alvorada o comando do PMDB para uma conversa na véspera da convenção nacional do PSDB.
Serra fez o papel que seria de Pimenta da Veiga, mas que este não pode realizar em virtude de suas dificuldades de diálogo com os dirigentes do PMDB, para alguns dos quais ele foi um dos autores de uma tentativa de exclusão do partido da aliança governista. Ao recusar Pimenta como intermediário, a cúpula do PMDB na verdade mantém suas ligações com o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, que incluiu o ministro na relação de seus inimigos pessoais. Se do ponto de vista político Bezerra representa o cimento do novo perfil da aliança governista, e de um status para o PMDB como o partido jamais teve no primeiro mandato, do ponto de vista programático o senador poderá representar, para o governo, o fator que faltava para o relançamento do crescimento e do desenvolvimento econômico em bases estruturalmente sustentadas.
Os industriais que Bezerra lidera na CNI - aos quais ele consultou extensamente antes de aceitar o convite presidencial - , desejam tanto quanto o PMDB levar adiante o projeto de reforma tributária que se encontra em debate na Câmara dos Deputados, por iniciativa, aliás, de Michel Temer (PMDB-SP), também um notável do PMDB. Ao PMDB e aos empresários do setor produtivo, Fernando Henrique está dando agora os instrumentos e as condições para que materializem a mais difícil das reformas constitucionais.

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