Escolas públicas de São Paulo têm uma morte a cada duas semanas
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sexta-feira, 10 de setembro de 1999
Por Leonardo Trevisan 
São Paulo, 11 (AE) - Durante seis meses do atual ano letivo foram assassinados 12 estudantes e 3 professores nas escolas de São Paulo. Mesmo sem descontar as férias escolares de julho, a média desses crimes indica um assassinato nas escolas públicas a cada duas semanas. Além das mortes, seis alunos foram feridos à bala com gravidade, no mesmo período. Dois professores e oito alunos foram esfaqueados com gravidade. A polícia prendeu de fevereiro a agosto 18 alunos e um professor armados nas escolas.
Esse índice de violência é o mais alto em qualquer comparação internacional. Um aluno morto a cada 14 dias é um índice quatro vezes maior do que o registrado nas escolas públicas americanas, por exemplo. Nos Estados Unidos, no ano letivo iniciado em setembro de 1997 e encerrado em junho de 1998
foram registrados 26 assassinatos em escolas. Segundo o Departamento de Educação do governo americano, em 1997 estudavam nas escolas públicas de todo o país 56 milhões de alunos A rede oficial de ensino do Estado de São Paulo possui 6 milhões de alunos e registrou 12 assassinatos em menos da metade do atual ano letivo.
Não existem estatísticas oficiais específicas sobre violência nas escolas. A Secretaria de Estado da Educação reúne dados apenas quando as escolas enviam cópias dos Boletins de Ocorrência. A secretária estadual da Educação, Rose Neubauer, reconheceu em entrevista que "os números podem ser até maiores". Foi preciso fazer um levantamento no noticiário policial diário do Estado, de fevereiro a agosto, para encontrar o nome das vítimas e os demais dados dos casos de violência nas escolas. O secretário de Segurança Pública, Marco Vinicio Petrelluzzi, sempre solícito em conceder entrevistas, desta vez se negou a comentar o assunto. Procurado pela reportagem desde o início da semana, desmarcou duas entrevistas.
Esses dados se referem exclusivamente a crimes cometidos vitimando alunos matriculados na escola onde eles ocorreram. Não estão computados os que não envolveram alunos matriculados na escola, caso de briga de traficantes na porta do estabelecimento escolar, por exemplo.
Razões - A metade dos assassinatos dos alunos teve motivos banais. Em seis deles pequenas discussões em jogos ou briga por namorada foram razões suficientes para os tiros. Os demais registram algum envolvimento com tráfico de drogas. O quadro é diferente do assassinato dos professores. Nos três casos, os docentes eram muito respeitados pelos alunos e não tinham nenhum problema policial. Em comum, os três professores mortos tinham o hábito de admoestar e aconselhar alunos envolvidos com drogas. Um deles chamava os pais de alunos que identificava consumindo drogas.
A presidente da Apeoesp, o sindicato dos professores da rede estadual de ensino, Maria Izabel Azevedo Noronha, afirmou que o professor "não pode ter medo de educar, mas não pode querer resolver as coisas sozinho". Ela lembrou que desde 1995 a entidade, depois de uma pesquisa realizada com a Ordem dos Advogados do Brasil sobre violência nas escolas, pediu providências ao governo estadual. Segundo Maria Izabel, a pesquisa mostrou que em 1995 todas as escolas já registravam ao menos um caso de violência todos os meses, mas "nada comparado ao que passou a ocorrer desde 1998".
Tanto a secretária da Educação como a presidente da Apeoesp concordam que a explosão de violência na escola pública "não pode ser tratada como caso de polícia". Maria Izabel afirmou que a dificuldade dos jovens em conseguir o primeiro emprego "tem grande relação com essa onda de violência". Ela, porém, insistiu que o professor não pode "deixar para lá" a questão das drogas, mas precisa ter uma "atitude mais profissional" procurando ajuda com quem sabe como atuar "em campo tão inseguro como o do envolvimento dos jovens com drogas".


