Escolas enfrentam crise com criatividade
Marta Medeiros Especial para a Folha
A falta de dinheiro e de estrutura física está levando as escolas estaduais de Maringá e região a criar ou intensificar alternativas para não prejudicar o atendimento aos alunos. A situação se revela quando professores enfrentam salas de aulas lotadas, sem material de apoio e alunos sem espaços adequados para educação física ou merenda.
Na tentativa de conseguir materiais básicos, pequenas reformas e melhorias, diretores e representantes das Associações de Pais e Mestres (APMs) promovem rifas, bingos, pizzas e até feijoadas. As promoções acabam se transformando na única fonte rápida de recursos para a escola.
No outro extremo da situação estão pais e alunos carentes que não conseguem colaborar com o colégio. A verba do governo é muito pequena. Muitas vezes a escola só consegue comprar material de limpeza e higiene através de bingos, rifas, vendas de pizza e festas, afirma o presidente da APM da Escola Estadual Gerardo Braga de Maringá, Carlos Alberto Silva.
Ele está na organização de uma feijoada e quer conseguir para a escola reformas e melhorias, como a pintura e demarcação da quadra poliesportiva, revisão na parte elétrica, conserto de refrigeradores de água, desentupimento nos banheiros e a conclusão do pagamento da compra de um contêiner de lixo. O problema da feijoada, porém, está no preço de R$ 6,00, mas a previsão de gastos só com a quadra de esportes é de R$ 1 mil.
Mesmo não existindo lei que leve alunos a participarem destas promoções, a obrigação moral acaba sendo o apelo das direções das escolas e das APMs junto aos pais. Acho que é uma questão de compreensão dos dois lados. O governo não tem enviado recursos e a escola acaba precisando da ajuda de todos para garantir atendimento adequado, ressalta Silva.
Fico triste com a situação dos alunos carentes. Eles levam um susto quando recebem comunicados de promoções. Para muitos pais, o valor pedido em uma promoção equivale ao dinheiro que ele, às vezes, tem para passar a semana, conta uma professora que prefere não se identificar. Ela alega que o relacionamento na escola onde dá aulas poderia ser prejudicado por causa da entrevista.
O presidente da APM do Gerardo Braga também lembra que a situação financeira de pais desempregados impede qualquer tipo de contribuição. Somente não aceito a desculpa de que o problema deve ser resolvido pelo governo, por isso, acho necessária e importante a participação e o envolvimento dos pais na escola, reforça Silva.
A diretora do Gerardo Braga, Maria José de Oliveira Padovin, cita que o Estado não incluiu as escolas de primeiro grau em programas de reformas como foi o PROEM para o segundo grau no ano passado. A escola atende 900 alunos e segundo Maria José, quando faz promoções consegue a participação de pelo menos 60% da comunidade estudantil.
Para o diretor da Escola Estadual Francisco José Periotto, em Mandaguaçu (16 km a noroeste de Maringá), Benedito dos Santos, pior que o dinheiro e estrutura física é a falta de humildade do governo em admitir que não tem dinheiro para as escolas. É um jogo interessante.
O Estado anuncia que repassa verbas, mas na prática não o faz. Se o governo fosse humilde e declarasse que não tem recursos para as escolas e fizesse uma campanha pedindo a colaboração dos pais, penso que a situação estaria melhor, diz Santos.
Ele conta que a escola irá se juntar com outras 10 entidades em uma festa junina de três dias na cidade para tentar arrecadar R$ 3 mil. Como a renda será dividida, cada entidade terá R$ 300,00. É muito esforço para conseguir pouco, mas não temos outra saída, lamenta o diretor.
A Escola José Periotto atende cerca de 1.200 alunos e enfrenta uma série de problemas e dificuldades. Até a sala que era utilizada para guardar o estoque da merenda foi interditada pela Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde do município, por causa do reduzido espaço e do telhado que provoca goteiras.
A falta de uma quadra de esportes para as aulas de educação física também é outro grande problema da escola. O barulho dos alunos no pátio interno durante as aulas tumultua e prejudica o andamento normal das demais aulas, ressalta Santos.
O diretor enumera ainda outros problemas, como a falta de salas de aulas, que obrigou este ano a transferência de quatro turmas para outros estabelecimentos de ensino da cidade. Enquanto os alunos se dividem em espaços reduzidos, os professores também são obrigados a ficarem em sala improvisada.
Temos problemas na calha do telhado e quando chove a sala dos professores fica intransitável, conta Santos. Ele lamenta ainda o fato de que apesar do município pagar monitores para aulas de reforço, não há salas para abrigar os alunos. Não temos também um refeitório, por isso, os alunos comem sentados no chão, completa.Diretores e representantes de APMs promovem rifas, bingos, pizzas e até feijoadas para custear materiais básicos
Fotos: Marcos NegriniPouco espaçoSala de aula lotada é um dos problemas mais comuns nas escolas da rede estadual na região de Maringá; algumas chegar a ter quase 50 alunosBenedito dos Santos: falta de estrutura





