As escolas circenses estão se revelando, no Brasil, como um dos melhores meios de integrar socialmente crianças e adolescentes em situação de risco, incluindo-se delinquentes. Alex Souza dos Santos, que se considera, aos 18 anos, ‘‘um artista’’ do equilibrismo e ganha a vida se apresentando em espetáculos de circo, é um claro exemplo dessa iniciativa.
Aos sete anos, Alex deixou sua família, em Itabuna, Bahia, acompanhando uma amiga prostituta em um passeio até o Rio de Janeiro. Foi nas praias e nas ruas dessa cidade que ele cresceu. Em 1993, escapou do massacre da Candelária, trágico acontecimento de repercussão internacional. Embora fizesse parte do grupo de oito crianças dizimadas, ele escapou da chacina porque costumava passar as noites em uma favela próxima do porto. ‘‘Muitos dos meus amigos da Candelária foram assassinados’’, lamenta Alex.
Os roubos e as drogas o levaram à beira da morte e esteve internado em instituições para menores infratores. Até que, há oito anos, conheceu o projeto de assistência ‘‘Se as ruas fossem minhas’’, criado por organizações não-governamentais. ‘‘Chorei de fome muitas vezes, era um rebelde, mas minha vida mudou, como se houvesse um anjo da guarda para me proteger’’, resume Alex.
Em uma velha casa que serve de sede para o grupo, integrado por uma maioria de negros, os jovens são iniciados em teatro, dança, música e informática. A preferência geral, contudo, é o circo. ‘‘É o que lhes dá maior prazer, talvez porque a arte circense seja uma continuação do que fazem nas praias e nas ruas - cabriolas, saltos mortais, malabarismos’’, diz Antonio Cesar Marques, coordenador do projeto.
Dos 90 meninos e meninas que frequentam a casa, dois terços se dedicam a aprender técnicas circenses. Os que mostram talento e vocação são encaminhados para a Escola Nacional do Circo, instituição oficial que forma profissionais em cursos de quatro anos. Alex é um deles. Especializado em se equilibrar sobre uma tábua apoiada em um cilindro, saltando cordas e fazendo acrobacias, já participou de um grupo teatral e atua em festas e escolas. Marques informa que há seis egressos do projeto ‘‘Se as ruas fossem minhas’’ na Escola Nacional do Circo, enquanto outros mais serão incorporados em agosto. Cinco já foram contratados por circos do País e do exterior.
Joe Ventura, um dos educadores, diz que o projeto é um centro de formação de cidadãos destinado a encaminhar as crianças rumo a uma profissão, não necessariamente circense. ‘‘Aprender as regras da convivência social, refletir sobre as suas vidas e o seu papel na sociedade são atividades permanentes desses jovens. Eles são também estimulados a compreender a importância da educação formal.’’ Alex já sabe ler e escrever e é articulado quando fala de seus erros passados.
Cerca de 1.300 jovens já usufruíram do projeto, uns mil retornaram aos seus lares ou se encaminharam para a escola ou para uma profissão regular. Apenas 200 voltaram às ruas, segundo informa Marques.

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