Escola tem dificuldade para desenvolver cidadania
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de maio de 1999
Por Gabriela Athias 
São Paulo, 24 (AE) - Os resultados da pesquisa Juventude, Violência e Cidadania mostram que a escola brasileira, independentemente de ser pública ou privada, tem dificuldades para desenvolver a cidadania nos estudantes. O problema fica mais evidente quando as questões se referem a juízos de valor. Os entrevistados de todas as classes econômicas disseram confiar mais na mídia do que nas escolas. "A escola não está conseguindo trabalhar o significado das informações passadas pela mídia", diz a educadora Guiomar Namo de Mello, do Conselho Nacional de Educação.
Prova disso é que, como exemplo de práticas anti-sociais, a maioria dos adolescentes classificou "queima de mendigo" como uma falta muito grave. No entanto, para esses mesmos jovens, humilhar travestis e prostitutas é menos grave. Há alguns meses, televisões, rádios e jornais noticiaram quase diariamente a violência de adolescentes de Brasília contra o índio pataxó Galdino dos Santos, queimado enquanto dormia em uma calçada.
Outro aspecto salientado pela pesquisa é a indiferença de uma grande parcela dos entrevistados em relação ao sistema democrático. O problema, no caso do índio Galdino, como ressalta o sociólogo Gabriel Cohn, da Universidade de São Paulo, é que a agressão não foi entendida como uma atitude mais ampla de desrespeito aos direitos humanos, mas um caso de violência localizada. Tanto que, no entendimento dos entrevistados, queimar mendigo é grave, mas humilhar prostitutas e travestis, não é tão ruim assim. "A escola está tendo um baixo impacto na formação dos alunos, independentemente da classe social", diz Cohn.
Pensando nesse novo papel da escola e do professor - que precisam trabalhar informações recebidas fora do ambiente escolar , transformando-as em conceitos mais amplos entre os alunos - o Ministério da Educação lançou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Essas normas lançam propostas de tornar mais crítica e analítica a abordagem das escolas em relação às disciplinas. "A absorção dos parâmetros nas escolas depende da formação do professor e da revisão do próprio papel da escola; isso são coisas que levam tempo", diz Guiomar. Para ela, a curto prazo, as escolas deveriam começar a trabalhar as mensagens da mídia.
Democracia - Para Cohn, o fato de parte dos adolescentes preferir a ditadura à democracia indica um profundo desgaste das instituições. Os jovens, diz, referindo-se à pesquisa, não estão preparados para o debate democrático, que inclui a crítica a essas instituições e a cobertura desse debate por parte da imprensa. "Não é que se está criando uma cultura antidemocrática, mas o descontantamento dos adolescentes os está levando a desejar uma outra situação, mais abstrata, que, nesse caso, é traduzida pela ditadura", diz Cohn.
"Nós não conseguimos mostrar de forma objetiva para os jovens o que foi a ditadura. Repetimos discursos cheios de ideologia e os adolescentes não gostam de adesão; deveríamos ser mais objetivos nas explicações do que foi a ditadura", acrescenta Guiomar. "O fato de as escolas não estarem conseguindo formar cidadãos é um elemento que fragiliza a democracia", diz Cohn.
A pesquisa mostra que as instituições que provocam mais desconfiança entre os jovens são os partidos políticos. Até a polícia (que costuma ser associada à violência) tem mais crédito entre os adolescentes. "Esses jovens que não confiam em partidos políticos não vão levá-los em consideração na hora de votar. E os eleitores têm o importante papel de ajudar a fortalcer os partidos", conclui Cohn.


