Escola resgata dignidade de crianças
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sábado, 21 de junho de 1997
Vânia Moreira Nova Olímpia 
Álvaro OrsiEmpenho e dedicaçãoO pré-escolar foi fundamental para reduzir os indíces de repetência e evasão nas turmas de 1ª a 4ª série. Empenho com a educação na cidade já salvou muitas crianças, adolescentes e deficientes condenados ao abandono e à miséria. Uma cidade inteira engajada num projeto ambicioso de educação. Nova Olímpia (56 km ao norte de Umuarama) está modificando a vida de muitas crianças pobres e marginalizadas. Meninos e meninas que antes trabalhavam na roça para ajudar os pais ou ficavam perambulando pelas ruas estão agora nas salas de aula limpas, bem alimentadas e surpreendendo os professores com o aprendizado. O empenho com a educação já salvou também muitas crianças e adolescentes deficientes, antes condenados à miséria e ao abandono.
O deficiente mental Messias dos Santos, 16 anos, é uma das maiores vitórias dos educadores. Até dois anos atrás, Messias passava os dias sentado em frente ao barraco onde mora com a mãe, Antônia dos Santos. Sempre sujo e faminto, o adolescente não falava e não andava. Para encaminhar Messias à escola, os professores tiveram que enfrentar a resistência da mãe. Antônia não admitia que o filho doente da cabeça se afastasse de casa, muito menos acreditava que pudesse aprender alguma coisa.
Tagarela Hoje, Messias frequenta a escola da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Cidade Gaúcha, um município vizinho. Aprendeu a andar e se comunicar. É um dos mais tagarelas e ativos da turma. Com uma história parecida com a de Messias, Roberto Carlos dos Santos, 15 anos, também superou a deficiência, se integrou à vida social e aprende marcenaria na APAE.
A escola também mudou a vida da família do bóia-fria Antônio Vicente. Com sete filhos, Antônio e a mulher Maria Aparecida trabalham no corte de cana e costumavam levar os filhos para a roça. Simone, 12 anos, e Sílvia Mara, 10 anos, chegaram a ser matriculadas diversas vezes mas acabavam abandonando a escola para seguir os pais.
As crianças viviam maltrapilhas, famintas. Depois de muitas visitas, muita conversa com os pais e uma bolsa de estudos, os professores conseguiram levar e manter os irmãos Vicente na escola, lembra a secretária municipal de Educação, Rosângela Magrinelli.
Graças à insistência dos professores, hoje as sete crianças frequentam a creche e cinco estão na escola. Além de Simone e Sílvia, Márcio, 7 anos, está fazendo o primário. Outros dois irmãos - Vanessa (4 anos) e Marriel (3 anos) - frequentam o pré-escolar e o maternal. Fora do período escolar, todos ficam na creche e os mais velhos ajudam a cuidar dos irmãos pequenos.
Missão difícil Rosângela Magrinelli recorda que convencer os pais de que as crianças precisavam ir para a escola foi difícil, mas não suficiente. Com uma família numerosa, Antônio Vicente precisava do trabalho dos filhos para ajudar a sustentar a casa. Para resolver o problema, a prefeitura passou a fornecer uma cesta básica, com a condição de que ele mantivesse os filhos na escola.
A prefeitura de Nova Olímpia passou a fornecer ajuda financeira aos pais para manterem os filhos na escola antes do governo colocar um projeto semelhante em prática. Mas o assunto é tabu na cidade. A prefeitura prefere não divulgar quantas famílias recebem o benefício, nem quais são.
Somos muito rigorosos neste aspecto. Só ganha a cesta básica quem realmente precisa e merece. Além disso, notamos que muitos pais sentem vergonha de receber esse tipo de ajuda e só aceitaram para que os filhos possam estudar, justifica Rosângela.
O auxílio financeiro aos pais é apenas uma das muitas soluções adotadas para levar todas as crianças para a escola. Vale tudo para atingir esse objetivo, desde fazer a matrícula em casa e criar uma escolinha de peões mirins para atrair aqueles que não gostam de estudar. Uma vez por semana, a garotada se reúne num sítio para montar em bezerros, sob a instrução de um peão profissional. Podem participar crianças de qualquer idade, desde que os pais autorizem e estejam estudando. A escolinha é um sucesso.


