São Paulo, 08 (AE) - Na periferia da zona sul de São Paulo, a Escola Municipal de Ensino Fundamental do Jardim Papai Noel, na região de Parelheiros, começou hoje as aulas sem professores, funcionários e lanche para os alunos. Também faltavam carteiras e só havia luz elétrica graças a uma conexão clandestina com a rede pública.
Apesar disso, a diretora, duas coordenadoras de ensino e a secretária da escola receberam os cerca de 200 alunos para iniciar as primeiras atividades pedagógicas com crianças que, em sua maioria, jamais conheceram um estabelecimento de ensino. Na entrada, um funcionário da construtora responsável pela obra da escola desempenhava, como voluntário, o papel de porteiro.
Ali, no meio do lamaçal da rua sem asfalto, a diretora explicava aos pais por que o local funcionaria provisoriamente em turnos de apenas duas horas diárias: "A Delegacia Regional de Ensino nos informou que os professores da escola ainda estão sendo selecionados", dizia Josefa, sem dar prazos para a normalização. "Só sei que o prazo publicado no Diário Oficial é dia 15", dizia aos poucos pais que, indignados, cobravam uma solução.
"Nos disseram que, dos 14 professores que a escola deve ter, só dois já foram selecionados", disse a diretora.Josefa negou-se a conversar com a reportagem até mesmo para dar seu sobrenome, mas explicou pacientemente a situação aos pais presentes: "Só recebemos metade das carteiras e ainda não começaram a entregar os lanches, por isso é melhor começar com horário reduzido, senão as crianças não aguentam", explicou.
Há anos vivendo num bairro sem escola, a maioria dos pais presentes parecia conformada: "Ainda é melhor isso do que nada", disse Irmo Marques, de 65 anos, feliz por ter conseguido finalmente uma vaga para o neto de 12 anos que vive com ele: "Antes, ele ia numa escolinha particular, mas vai ter de começar da 1.ª série de novo, porque não aprendeu muito lá, não". Marques afirmou que pagava R$ 35 por mês pela escola.
"Prefiro ficar um tempo assim do que minha mulher caminhar duas horas por dia para levar os meninos para a escola, como foi no ano passado", comentou Berivaldo de Andrade, pai de dois meninos, de 7 e 8 anos. Revolta - Entre os poucos pais revoltados com a situação estava o pintor Alberto Dias Tavares, que só conseguiu matricular seus filhos em escolas e em turnos diferentes. "Com isso ficou impossível a gente levar os meninos para a escola e somos obrigados a pagar duas peruas", conta Tavares. "Agora, pagar perua para ter duas horas de aula eu não vou, não!" O pintor enfatizou que os R$ 90 gastos com transporte representariam quase 10% do orçamento da família. Demora - A Secretaria Municipal da Educação informou, por meio de sua Assessoria de Imprensa, que o quadro de professores da escola estará completo até o fim da semana. Já o mobiliário deve estar totalmente entregue até o fim da próxima semana. Segundo a secretaria, a escola ainda não foi oficialmente inaugurada.
A alguns quilômetros dali, no Jardim Jordanópolis, uma outra escola mostrava que as situações provisórias podem arrastar-se por muito tempo na rede municipal. A Escola Municipal de Educação Infantil Castro Alves iniciou, em junho, suas obras de ampliação: três das seis salas foram demolidas para dar lugar ao novo prédio. Desde então, o período de aulas foi reduzido de quatro para duas horas diárias, porque os alunos têm de revezar-se para usar as salas restantes.
A obra estava prevista para terminar em janeiro, mas hoje só funcionavam duas salas, tornando o rodízio de alunos ainda mais complicado. Segundo as novas previsões da Secretaria Municipal da Educação, a obra deve estar concluída só no dia 7 de maio.

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