Dos 1.379 alunos do Colégio Estadual Professora Eudice Ravagnani de Oliveira – o maior estabelecimento de ensino de Florestópolis – 62% vivem em famílias cuja a renda não ultrapassa um salário mínimo. Outros 6% são de famílias sem qualquer fonte de renda. Dos 400 alunos do período noturno, a maioria absoluta é formada por bóias-frias.
Shirlei Aparecida de Oliveira Nogueira, 46 anos, é a diretora da escola. Morando há 32 anos na cidade, ela é testemunha privilegiada da mudança do perfil do comportamento dos jovens e das crianças. No início de 1984, ela foi a primeira pessoa a ocupar o cargo de 1ª secretária da Pastoral da Criança local e ainda se emociona quando se recorda das condições em que algumas crianças viviam na época. ‘‘Cheguei a fazer faxina semanalmente em casas imundas. Tirei um bebê que dormia no chão frio porque a mãe achava que isto curava febre’’.
Hoje ela tenta disciplinar quem ajudou a salvar da morte. Chega a percorrer com seu carro as ruas da cidade à procura de alunos rebeldes que simulam ir para escola mas que, na verdade, buscam diversão nos bares ou em namoricos no escuro.
Graças a uma inusitada estratégia de ação, desmobilizou gangues que infernizavam os alunos na saída e entrada das aulas. Em algumas ocasiões, o grupo chegava a adentrar o pátio e arrumar brigas sem sentido. Hoje, se todos os problemas não estão resolvidos, pelo menos este não faz mais parte do cotidiano do colégio.
Cansada de ver as instalações da escola como alvo de vandalismo e pichações, além de um ou outro caso de arrombamento, Shirley matou dois coelhos com uma só paulada ao mobilizar 17 adolescentes destas gangues em torno de uma atividade cultural. A escola serviu como sede de um grupo de dança de rua e capoeira, que acabou até ganhando prêmios. Mesmo que o ceticismo e o desinteresse os tenham feito desistir da empreitada, estes jovens são hoje gratos a Shirlei e funcionam como uma espécie de guardiões da escola.
Com as gangues longe e o prédio do estabelecimento intacto, Shirlei continua tendo muitas preocupações. A principal delas é motivar seus pupilos, mergulhados em profunda baixo-estima, que o fazem desacreditar na importância dos estudos em uma comunidade baseada no trabalho braçal. ‘‘Eles vivem me dizendo: ‘Para que estudar, dona Shirlei? Para que perder tanto tempo para depois não conseguir emprego e trabalhar na roça como os analfabetos’. Isto me perturba e tenho tentado mostrar a eles que saber mais é sempre uma coisa importante por si só’’.
A desmotivação pode ser traduzida em números. Apesar de ter aumentado o número de matrículas no ensino médio ᖠfenômeno que não é local, mas nacional – no colégio de Shirlei apenas 29 de uma turma com 62 estudantes que iniciou o curso há dois anos e meio, pretende concluir o antigo 2º grau. Destes, uma minoria insignificante pensa em tentar o vestibular para ingressar em uma universidade.
Para se fazer entender, as aulas de auto-estima incluem comparações próprias do dia a dia dos adolescentes da região. ‘‘Dizemos que eles ainda são canas doces, que todo mundo quer, mas se não estudarem, poderão parecer uma cana seca, que é descartada imediatamente’’.

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