Para marcar o Dia de Zumbi dos Palmares, feriado carioca dedicado ao líder negro, arqueólogos e historiadores retomaram ontem as escavações do Cemitério dos Pretos Novos, na Gamboa (zona portuária do Rio), descoberto por acaso em 1996.

O cemitério está localizado na área antes conhecida como entreposto do Valongo. No século 18, ali funcionava o maior mercado de escravos do país. Construído em 1770 e extinto em 1831, o cemitério foi feito para enterrar os africanos recém-chegados ao Brasil.

''Muitos escravos morriam logo depois de desembarcar. Eles faziam a travessia em compartimentos de 1,5 metro de altura, acorrentados, e não recebiam alimentação suficiente. Os que chegavam vivos estavam muito debilitados'', explicou o historiador Antônio Carlos Athayde, coordenador do projeto ''Africanos Novos da Gamboa'', responsável pelas escavações.

As primeiras ossadas foram encontradas em janeiro de 1996, durante uma reforma na casa da empresária Ana Maria Mercedez Guimarães, 45. ''Um dos pedreiros me ligou, desesperado, falando que tinha um monte de ossos no meu quintal'', contou.

A Prefeitura do Rio foi até lá e, com uma equipe de arqueólogos, retirou 28 ossadas e cerca de 3 mil ossos. As escavações não puderam ser realizadas por falta de verbas. Desde então, o quintal da casa de Ana Maria estava cercado, à espera de um projeto para explorá-lo. Em setembro deste ano, uma parceria da prefeitura com o Instituto de Arqueologia do Brasil permitiu que as escavações recomeçassem.

De acordo com Athayde a pesquisa no cemitério deve durar dois anos e custará R$ 240 mil. ''Uma equipe de 20 a 25 pessoas vai trabalhar no local. Depois de terminado o trabalho, pretendemos montar um museu dos escravos com todos os achados'', explicou.

No Cemitério dos Pretos Novos, os escravos eram enterrados nus em covas rasas coletivas, amontoados, sem receber nenhum tipo de cerimônia fúnebre. Segundo o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, muitos, por estarem doentes e não terem mais condições de trabalhar, eram enterrados ainda vivos.

A igreja de Santa Rita, na região do cemitério, tem registros de 5 mil enterros de escravos num período de apenas quatro anos.

Segundo Florentino, a descoberta é extremamente importante por se tratar do mais antigo cemitério de escravos em área urbana descoberto até agora no Brasil. ''Normalmente encontramos cemitérios em fazendas. Além disso, ele é importante porque, por se localizar num mercado, reunia escravos de diferentes regiões.'' Florentino informa que cerca de 3,6 milhões de escravos negros foram trazidos para o Brasil entre os séculos 16 e 19.

De acordo com a arqueóloga Lília Cheuiche, que analisou as ossadas retiradas do sítio arqueológico, a maioria era de homens, com idade entre 18 e 25 anos. ''Mas também havia mulheres, adolescentes de 15 a 18 anos e até crianças de 3 anos.''

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