Escassez de comida na Regata
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Julio Cruz Neto 
Cabo Verde, 31 (AE) - Para percorrer as 2.200 milhas (4.074 quilômetros) da maior perna da Regata do Descobrimento, entre Mindelo (Cabo Verde) e Salvador, os veleiros tiveram que encher seus depósitos. Mas não foi uma tarefa das mais fáceis num arquipélago pobre, sob ameaça de cólera e sem a menor auto-suficiência.
Os veleiros partiram de Mindelo na última terça-feira e o tempo estimado para se chegar a Salvador é de duas semanas - tempo em que o clima vai esquentar progressivamente. O ideal, portanto, seria levar, além de água, muitas frutas e verduras a bordo. Mas alguns velejadores tiveram medo de fazer compras em Mindelo. E até o Brasil, vão comer apenas o indispensável de alimentos frescos.
"Em Cabo Verde, tem perigo do cólera", alerta Jamil Aun, que tem dois restaurantes em São Paulo - um árabe e um italiano - e é, entre os cinco tripulantes, o responsável pela parte gastronômica no Paratii, veleiro de Amyr Klink: "Até dá para fazer salada, deixando de molho no mínimo meia hora numa solução de cloro e cândida. Quebra o galho, mas não é aconselhável. Vamos comer o mínimo possível." Além do medo do cólera, Jamil, quando foi às compras, também notou que não seria fácil encontrar tudo o que queria: "Cabo Verde é muito fraco de comida, vem tudo de fora. Seria ideal, por exemplo, comer uns melões, mas não encontrei."
Mas não faltaram só verduras e frutas, lamenta Jamil: "Fomos em todos os mercados e eles não têm queijo ralado e sacos de lixo. Os sacos, tivemos que pedir para os outros veleiros." Mas, como fazer suas massas sem queijo ralado? "Eu capricho no molho, não tem problema." Quanto aos pratos árabes, tudo em ordem. Jamil tem a bordo babaganouch, homus e trigo para fazer tabule. água mineral também não falta. "Até Cabo Verde, cada um estava tomando em média 1,5 litro por dia", conta Jamil: "Agora a previsão é de três litros. Mas temos 270."
Já a tripulação do Hozhoni, que assim como o Paratii faz a travessia do descobrimento sem disputar a regata, tem menos sede. Segundo o belga Thierry Stump, que construiu o veleiro, há 200 litros de água potável. E são seis tripulantes, um a mais do que no Paratii: "O ideal seria cada um consumir 1,5 litro de água por dia, mas não bebemos tudo isso."
No Cisne Branco, o risco de cólera parece estar longe - tanto em relação à água quanto à comida. Ao contrário do que ocorre durante as viagens, quando se utiliza água do mar dessalinizada e clorada, nos portos é obrigatório usar água doce local. Mas o sub-oficial João Anísio Ferreira explica que essa água é sempre testada.
A procedência dos alimentos, diz Anísio, também é segura: "Nos portos, só compramos dos ship chandlers, que são revendedores autorizados." Isso garante, segundo ele, que os peixes adquiridos não trazem risco para os tripulantes: "O problema do peixe é o manuseio. Quando vem do oceano, como em Cabo Verde, não tem problema de contaminação." Quando aos alimentos retirados da terra, por via das dúvidas, os cozinheiros do Cisne Branco receberam uma recomendação especial: reforçar a lavagem de verduras com água e vinagre. É melhor prevenir do que remediar - principalmente quando se está em alto-mar, longe de qualquer hospital.
Dos veleiros que disputam a regata, os únicos que passaram suas posições hoje foram os brasileiros Viva (09o02 de latitude norte e 26o08 de longitude oeste) e Papa Léguas (09o70 norte e 25o44 oeste). Com fraco vento norte-nordeste de sete nós
o Viva se aproximava aos poucos do Cisne Branco e já podia ser visto na popa, a olho nu.


