Oitenta países vão sofrer problemas por escassez de água em um futuro próximo, segundo dados do Banco Mundial (Bird). ‘‘Muitos desses problemas podem acabar em conflitos’’, disse ontem Sanderson Medeiros Leitão, consultor da Unesco, durante a 3ª Conferência Latino-Americana sobre o Meio Ambiente (Ecolatina 2000), que está sendo realizada, até hoje, em Belo Horizonte.
Para Leitão, escolhido por entidades internacionais como um dos líderes do próximo milênio na questão de águas, a situação mais grave atualmente é a do Egito, com uma população maior do que suas reservas de água podem suprir. Outro local crítico é a Bacia do Rio Jordão, que corta Israel, Síria, Jordânia e a região da Palestina. ‘‘Nas colinas de Golan, território da Síria controlado por Israel, é onde ficam as nascentes do Rio Jordão’’, explica. Outra área de conflito na região, a Faixa de Gaza, abriga importantes aquíferos, numa das partes mais secas do planeta.
Outras regiões de conflito, onde além da religião a água deve aumentar as disputas, são Índia e Paquistão, que compartilham bacias hidrográficas, e toda a bacia do Rio Niger, na África, vital para Guine Conacri, Mali, Niger e Nigéria. ‘‘Também na América há conflitos envolvendo recursos hídricos. Os barramentos feitos pelos Estados Unidos no Rio Colorado deixam pouca água para o México’’, diz Leitão.
O Brasil, nesse contexto, é privilegiado como um dos três países com mais água potável do mundo (junto com o Canadá e a Rússia). ‘‘Precisamos, porém, saber como tirar proveito disso, já que temos aqui mesmo regiões de deficiência hídrica, muitos mananciais contaminados e conflitos de uso para serem administrados’’, diz o consultor da Unesco. Outro ponto destacado por Leitão é a cobiça internacional sobre a Amazônia. ‘‘Sou contra alarmismos, mas primeiro a Amazônia era pulmão do mundo, depois o maior depósito de minério e biodiversidade e, agora, também de água’’, avalia.
Conflitos pelo uso da água podem levar países a entrar em guerra, mas também levam a brigas de vizinhos. Um dos exemplos acontece na Bacia do Rio Riachão, em Montes Claros (MG). A falta de entendimento entre agricultores familiares e empresários que usam irrigação tem dificultado a organização do Comitê de Bacia na região. ‘‘O aumento da demanda, que causa a redução da vazão do rio, aliada ao desnível econômico entre os moradores deixam os ânimos tão acirrados, que ficou difícil até começar a conversar’’, conta Aloísio Prince, diretor do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).
Segundo o secretário de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, Cláudio Langone, já houve até conflito armado entre os arrozeiros, uma das principais atividades na metade Sul naquele Estado. ‘‘Quem está na parte alta do rio tira água e quem está abaixo fica sem’’, diz. Para o secretário, os Comitês de Bacia são uma solução para administrar os conflitos, não só nas próprias bacias como entre bacias vizinhas.
O Rio Grande do Sul é um dos Estados onde o processo de criação dos Comitês está mais avançado. Das 23 bacias do Estado, 12 têm Comitês formados e 11 possuem comissões provisórias. ‘‘A participação de todos os setores envolvidos é fundamental para o processo avançar’’. Lá, 40% são representantes da sociedade civil, 40% são usuários (municípios, empresas etc.) e 20% são dos governos federal e estadual.
Para Langone, a estruturação da Agência Nacional das Águas (ANA), que administrará os recursos com a cobrança pelo uso da água, é a grande oportunidade para fazer planos de ação para o setor, que devem respeitar as peculiaridades e graus de avanços regionais.

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