Escassez de água e superpopulação dão origem a mistura fatal
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de julho de 1999
Por Danielle Knight, da IPS (assinatura obrigatória) 
Washington (AE-IPS) - Especialistas em saúde e ambiente pediram aos parlamentares do mundo que considerem o impacto da alta densidade populacional e a escassez de água sobre a propagação de doenças. "Os riscos de contágio de enfermidades são maiores nos lugares onde a água é escassa, as instituições são débeis e a população cresce de forma acelerada", indicou Robert Engelman, diretor do Programa de População e Ambiente de Ação Popular Internacional, um grupo de Washington.
A advertência foi feita após a publicação de um informe da Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo o qual as doenças infecciosas como a malária, a AIDS, a diarréia e a tuberculose são a causa principal da morte de crianças e jovens. A crescente resistência aos antibióticos, as novas doenças e um grande aumento das populações urbanas em todo o planeta são alguns dos motivos possíveis da perda de controle sobre estas doenças, sustenta a OMS. A maioria das enfermidades são passadas de pessoa a pessoa, mas mais de 20% de outras infecções mortais, entre as quais se encontram o cólera e a febre tifóide, são transmitidas através da água, dos alimentos e do solo. A água serve como veículo para a bactéria do cólera e para muitas outras, disse Mary Wilson, professora assistente da Faculdade de Medicina e Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos. "A escassez de água doce, a acumulação de pessoas e a precariedade dos sistemas sanitários podem causar um aumento das infecções transmissíveis pela água", explicou Wilson, que falou sobre este assunto com os parlamentares dos Estados Unidos.
O incremento da urbanização provocou um aumento na demanda por água, tubulações e sistemas de deságue, que foram projetados quando as populações eram bastante reduzidas, agregou Timothy Ford, também de Harvard. Várias cidades antigas têm seus sistemas de purificação de água deteriorados, e os programas de substituição ou ampliação são inadequados. Os velhos tubos de deságue, muitas vezes construídos perto dos tubos de água potável, estão corroídos e "criam um ambiente favorável para o surgimento de agentes patogênicos", explicou Ford. "Muitas vezes não existe tratamento das águas servidas nem uma coleta eficaz de lixo, coisas que provocam um grave impacto nas comunidades e nos ecossistemas costeiros", advertiu.
A concentração de pessoas em zonas urbanas, sobretudo em megacidades como a Cidade do México, Shangai e São Paulo, causa ainda mais pressão sobre estes envelhecidos sistemas de tratamento de águas servidas. "A capacidade dos sistemas de purificação de água dos países em desenvolvimento é menor do que a demanda por água potável, e a consequência é que a água não e boa e o abastecimento é intermitente", disse Ford. Uma sociedade sustentável deve construir-se sobre o ciclo hidrográfico, indicou Engelman. "Estamos chegando a um momento em que a água da chuva já não bastará para irrigar as plantações
esfriar os motores da indústria, nem para beber ou tomar banho", anunciou.
O uso de água em todo o planeta se multiplicou por seis desde 1900, mas o abastecimento mundial não aumentou, indicou Sandra Postel, diretora do Projeto de Políticas Mundiais de água, dos Estados Unidos. "A população aumentou de forma significativa nas zonas do planeta onde mais falta água", assinalou. "Calcula-se que nas margens dos rios Nilo, Jordão, Tigre, Eufrates, Ganges e do Mar de Aral, a população aumentará entre 45% e 78% entre 1995 e o ano 2025", agregou. Mas em nenhum destes locais existe um tratado que determine a melhor maneira de distribuir a água entre todos os países. "Em muitos casos, nem sequer há água suficiente e isso poderia provocar conflitos", advertiu Postel. As populações podem retirar água "fóssil" das reservas subterrâneas, mas nunca se recuperarão na mesma velocidade do consumo humano, assinalou Engelman. "Essa água só serve uma vez, e deixa as sociedades superpovoadas desprovidas para a escassez que virá quando a água não-renovável tiver desaparecido ou quando for demasiado caro extraí-la da terra", explicou.
As regiões que causam maior inquietação são o Oriente Médio, a ásia Ocidental, a áfrica setentrional, oriental e austral, e partes do Caribe. "As mães de certos povoados africanos dão a seus filhos água que elas sabem que pode trazer doenças, mas não têm outra", declarou Engelman. Comunidades inteiras de certas regiões de Bangladesh e da Índia estão se envenenando aos poucos com arsênico porque o nível de água baixou tanto que o elemento químico, que se encontra naturalmente nos solos, contaminou o que ainda resta de água subterrânea. Os países industrializados não ignoram estes problemas. Muitas cidades do oeste dos Estados Unidos estão cavando poços de água a uma velocidade insustentável, com a qual reduzem o volume do rio Colorado. "A escassez de água é maior quando se utiliza de maneira menos eficaz e quando os governos e outras instituições não são capazes de administrar o recurso de maneira justa", observou Engelman.
Esta escassez de água exige mudanças fundamentais no modo de utilização do elemento, indicou Postel. "Temos que fazer mais com menos. Como sociedade global que somos, devemos encontrar a maneira de duplicar nossa produção de água, ou obter o dobro de benefício por cada litro", exortou. Postel pediu aos legisladores que invistam mais fundos na pesquisa para encontrar meios de irrigação mais eficazes. Postel citou como exemplo a Lei de Política Energética dos Estados Unidos, que impõe medidas de eficácia aos fabricantes de aparelhos sanitários, duchas e outros artefatos que utilizam água. "Isto tem consequências importantes à medida que passa o tempo, porque incorpora infra-estrutura de conservação de água nas cidades", destacou.


