MOSCOU (AE-NEWSWEEK) - O enredo bem poderia ser material-fonte para um livro de John Le Carré. Em 1990, a União Soviética estava nos estertores da morte. Sua economia estava em deterioração, o déficit comercial aprofundava-se cada vez mais, o país não conseguia pagar sua dívida externa.
No dia 27 de novembro desse ano, um braço do Banco Estatal soviético com sede em Paris - predecessor do atual Banco Central da Rússia - estabeleceu na surdina uma empresa no exterior denominada Financial Management Co. Ltd. (Fimaco), com o propósito ostensivo de ajudar Moscou a lidar com seus problemas de dívida. Na mesma época, líderes do Partido Comunista da União Soviética - sentindo estarem prestes a perder seus 70 anos de poder - estavam arrumando jeitos de canalizar recursos e propriedades do partido para os paraísos seguros e secretos no exterior.
Agora, a existência da obscura empresa de fachada no exterior explodiu na forma de um escândalo que macula quase toda a estrutura de poder russo e poderá ameaçar a ajuda financeira ocidental da qual Moscou precisa tão desesperadamente.
Segundo os documentos obtidos pela Newsweek, incluindo uma auditoria interna do Banco Central, o governo russo fez transferências de bilhões de dólares das suas preciosas reservas de moeda forte por meio da Fimaco durante um período de seis anos. É como se o Federal Reserve dos Estados Unidos secretamente evadisse dinheiro por meio das Ilhas Cayman.
As provas indicam, também, que, em 1996, a Fimaco especulou ilegalmente, mas muito lucrativamente, no ainda iniciante mercado doméstico de ações de Moscou. E as fontes da Newsweek indicam que parte dos lucros podem muito bem ter acabado ajudando a financiar a reeleição do presidente Boris Yeltsin em 1996.
Tudo isso é o tipo de manobras financeiras feitas "por baixo do pano" que deixa o Fundo Monetário Internacional (FMI) muito irritado. A história da Fimaco veio à tona no início do mês passado, quando o chefe da promotoria pública, Yuri Skuratov, revelou publicamente a existência do banco no exterior.
Dadas as origens na era comunista da Fimaco e sua existência no decorrer de quatro governos pós-soviéticos, não foi surpresa que apenas um legislador independente, Nikolai Gonchar, investigasse com mais vigor o escândalo.
Devido à falta de um apoio mais amplo, Skuratov disse a princípio que renunciaria, ostensivamente por questões de saúde, uma desculpa padrão nas demissões no Kremlin. Então, na semana passada, o promotor voltou atrás na renúncia e a usualmente dócil Câmara Alta (Senado), o Conselho da Federação, apoiou-o (um promotor não pode renunciar sem consentimento do conselho). Em uma tentativa desajeitada e grosseira para desacreditá-lo, o Kremlin aparentemente permitiu que um videotape secreto de Skuratov divertindo-se com duas prostitutas fosse levado ao ar pela estação de televisão de propriedade governamental.
Parece que essa transmissão prejudicou o Kremlin tanto quanto prejudicou Skuratov. Yeltsin, que acaba de sair de uma clínica, após semanas de internação para tratamento de uma úlcera, prontamente demitiu seu chefe de gabinete, que pareceu estar assumindo as consequências pelo desastre do videotape. Agora que conseguiu seu intento, provavelmente Skuratov deixará o cargo logo. O caso Fimaco não será descartado tão facilmente.
A firma foi registrada em Jersey, o paraíso fiscal britânico na Ilhas Channel. Era operada pela sede em Paris do Eurobank, do qual 78% são propriedade do Banco Central russo. Um documento de 1993, assinado por um deputado conceituado para Viktor Gerashchenko - na época e ainda agora presidente do Banco Central- deixa claro que as transferências de dinheiro para a firma no exterior eram altamente delicadas. "O saldo da conta de investimento do Banco Central na Fimaco não deveria aparecer no balanço patrimonial do banco", escreveu o assessor A.V. V. Voilukov.
Documentos obtidos pela Newsweek comprovam que as primeiras transferências do Banco Central para a Fimaco ocorreram em 1993, quando pouco mais de US$ 1 bilhão foi transferido para o exterior. Vários ex-altos dirigentes do Banco Central - assim como Andrei Movchan, atual presidente do Eurobank e membro do conselho da Fimaco - insistem em que as reservas foram transferidas porque uma empresa suíça tinha conseguido uma indenização judicial contra ativos do governo russo.
O medo deles, diziam, era que as reservas em moeda forte pudessem ser usadas para honrar a indenização a ser paga à firma suíça.
A Newsweek teve informações de que o FMI estava ciente, na época, que o Banco Central gerenciava alguns de seus ativos por meio das subsidiárias européias tais como o Eurobank. Um porta-voz do FMI afirma, no entanto, que o fundo não estava ciente de que tinha sido criada uma empresa de fachada em Jersey para manipular reservas em moeda forte. "Teríamos ficado bem menos entusiasmados com o arranjo se soubéssemos disso", disse ele. Por um bom motivo: geralmente as empresas de fachada nos paraísos fiscais como Jersey são estabelecidas especificamente para evitar escrutínio. O FMI ficaria ainda mais surpreso ao descobrir que um grande naco de seu primeiro empréstimo para Moscou - US$ 500 milhões de um plano de ajuda de US$ 800 milhões concedido no fim de 1993 - também foi direto para a Fimaco para ser mantido em segurança, segundo uma fonte que conhecia o acerto intimamente. A mesma fonte afirma, porém, que depois de seis meses esses recursos voltaram para Moscou e foram gastos como pretendido pelo FMI.
Um ano mais tarde, mais uma vez o Banco Central encontrou uso para a conta no exterior e o momento desse uso foi estranho. Apenas uma semana antes da primeira grande desvalorização da moeda russa, Gerashchencko ordenou uma transferência de US$ 1,4 bilhão em reservas em moeda forte para a Fimaco - um terço das reservas do banco na época. Por que o banco resolveu transferir esta soma uma semana antes da desvalorização não está claro. O que está claro é que as reservas não foram usadas para ajudar a defender o rublo.
As transações mais controvertidas da Fimaco aconteceram em 1996, quando Yeltsin estava se armando para vencer a reeleição. O Banco Central encaminhou dezenas de milhões por meio da Fimaco para títulos domésticos russos. As transferências foram feitas antes que fosse permitido a instituições estrangeiras como o Eurobank comprar títulos domésticos.
Em três investimentos diferentes, o Banco Central investiu mais de US$ 143 milhões em títulos domésticos durante a campanha de 1996. Na época, as taxas de juros sobre os títulos eram estratosfericamente altas e o banco obteve um lucro de US$ 38 milhões.
Para onde foi o dinheiro é a questão dessa contenda feroz. Vários funcionários de alto escalão do governo anterior dizem acreditar que os lucros dos títulos ajudaram a financiar a campanha de Yeltsin. Mas uma fonte com conhecimento interno afirma que o dinheiro foi colocado no mercado de ações com a finalidade única de provocar a queda nas taxas de juros, fazendo parecer que a estratégia econômica de Yeltsin estava funcionando.
Movchan diz que o Eurobank fechou as contas do Banco Central na Fimaco no mês passado, mas várias questões fundamentais permanecem sem resposta. Uma é quem é realmente o dono da Fimaco, uma questão sobre a qual funcionários do FMI crivaram de perguntas Movchan na prolongada reunião realizada na última sexta-feira em Moscou. Movchan repetiu que a Fimaco é propriedade integral do Eurobank. Mas ninguém deu ao FMI ou a Skuratov nenhuma prova documental.
Uma outra questão que permanece está relacionada com o papel da Fimaco nos dias em que a União Soviética agonizava. Fontes dizem que a empresa foi usada como um paraíso de segurança para empréstimos e créditos concedidos ao governo soviético por bancos e países estrangeiros.
Em 1990, por exemplo, foi o atual primeiro-ministro russo, Yevgeny Primakov, então membro do Politburo regente, quem negociou um empréstimo de US$ 1 bilhão dos Estados árabes no Golfo Pérsico. Fontes dizem que o dinheiro acabou em paraísos secretos no exterior via Eurobank.
Em um relatório de 1991, o ex-coronel da KGB (serviço secreto siviético, já extinto) Leonid Veselovski, que foi designado para administrar asssuntos comerciais do Partido Comunista no exterior, dizia a seus patrões que tinha encontrado formas de encaminhar o dinheiro do partido para o exterior. A meta declarada: garantir o bem-estar financeiro dos líderes do partido depois que perdessem o poder.
Entre os cinco altos funcionários que Veselovski diz ter informado estão Gerashchencko e Primakov.

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