São Paulo, 22 (AE) - Enquanto as vendas de veículos novos despencam em parte por causa do alto juro do financiamento
o mercado de carros velhos sobrevive do escambo na periferia de São Paulo. Na quinta-feira, uma banca de pastel, avaliada em R$ 300,00, serviu como entrada para um Gol 81, vendido por R$ 2,8 mil na Fênix World Car, no bairro de Itaim Paulista, Zona Leste. O proprietário da loja, Fernando Albacete Amorim, diz que "aceita qualquer negócio". Aparelhos eletroeletrônicos, computadores, instrumentos musicais e até um cachorro Dobermann já entraram como pagamento de automóveis, a maioria fabricada antes de 1986. Ele afirma que só exige nota fiscal ou certificado de procedência do produto, que pode ter até dois anos de uso.
Alguns dos equipamentos são usados no próprio escritório da loja ou então revendidos. Em dezembro Amorim bateu recorde, com a venda de 30 veículos. Neste mês ele já vendeu 13. Entre as ofertas da loja estão um Landau 81, que teve apenas dois donos e um Del Rey 83, por R$ 800,00 de entrada e 24 parcelas de R$ 99 00. No bairro de São Miguel Paulista, a Fênix Leste Car oferece financiamento próprio em até dois anos. "Preparo as promissórias e o cliente assina", diz o proprietário Luis Carlos Albacete, que também aceita aparelhos de som, telefone celular e outros produtos na troca pelos modelos ano 80 a 86 disponíveis na loja.
Albacete vende em média oito automóveis por mês e só financia para quem tem nome limpo na praça, com juros de 4% ao mês. Recentemente, dois cheques de R$ 225,00 pagos por um serralheiro voltaram sem fundos. Diante da impossibilidade de saldar a dívida, o cliente aceitou construir um portão na casa de Albacete. Ele e Fernando são irmãos e iniciaram o negócio há seis anos. Hoje cada um tem sua loja, casa própria e carro novo. Na Leste Car o modelo mais barato à venda na semana passada era um Fiat 147 ano 86, oferecido por R$ 1 mil.
Desvalorização - De acordo com a Associação dos Revendedores de Veículos Usados no Estado de São Paulo (Assovesp), os modelos fabricados até 90 tiveram desvalorização de 3,52% no ano passado. Para os carros ano 91 a 95 a queda foi de 2,48% e para os seminovos (de 96 a 99), de 1,34%. Já os comerciantes que não trabalham com escambo reclamam da queda nos negócios. "O mercado está parado desde novembro", diz Marcelo Santana Sacramento, sócio da loja Detroit. "Vendo mais coco verde que automóvel", afirma ele, que iniciou o novo negócio recentemente. Ele trabalha com carros velhos há oito anos e afirma ser este o pior momento do setor.
Sacramento tem um Fusca 76 por R$ 1 mil, mas, se pechinchar, o cliente leva por R$ 800,00. "Aceito até R$ 500,00 de entrada e R$ 300,00 para 30 dias", afirma, acrescentando que o carro está com a lataria "cheia de remendos, mas é bom". Um Chevette 80 sai por R$ 1,2 mil e um Opala 89 por R$ 4 mil. Frota - Na avaliação dos lojistas, o projeto em discussão entre governo, montadoras e sindicatos para a renovação da frota não deve prejudicar as vendas. "Sempre tem alguém que não pode comprar um carro mais novo e vai querer o velhinho mesmo", diz Albacete.
A proposta prevê o pagamento de um bônus de R$ 1,8 mil para quem entregar para o sucateamento um carro com mais de 10 ou 15 anos. Já o início da inspeção veicular, prevista para 2001
pode atrapalhar os negócios. A intenção do governo é retirar de circulação carros que não forem aprovados em testes de emissão de poluentes e segurança.
Na opinião de Amorim, o governo tem de ser responsável. "Comprei carros velhos e paguei; alguém tem de se responsabilizar por isso", diz. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), dos cerca de 20 milhões de veículos em circulação no País, pelo menos 9,5 milhões foram fabricados há mais de 10 anos. Essa frota antiga, segundo a entidade, é responsável por 60% dos acidentes com vítimas fatais e por 80% da emissão de poluentes.

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