Curitiba - De 1995 a 1999, houve uma queda de 23% no número de crianças com idade entre 10 e 14 anos, que desenvolviam alguma atividade de trabalho no Brasil. Porém, 90% dessa redução aconteceu entre 1995 e 1996. A partir de 1997, a redução do trabalho infantil perdeu ritmo e agora se encontra praticamente estagnada. Essa é a constatação da jornalista Andréia Prestes e da fotógrafa Nair Benedicto, que lançaram ontem em Curitiba o livro ''A Caminho da Escola: 10 anos de Luta pela Erradicação do Trabalho Infantil''.
O livro faz uma avaliação da primeira década de desenvolvimento do Programa Internacional para Erradicação do Trabalho Infantil, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O Brasil foi o primeiro país da América Latina a receber o programa.
Para escrever o livro, a jornalista e a fotógrafa foram conhecer diversos programas que estão em vigência hoje no País e que têm o objetivo de acabar com o trabalho de crianças, especialmente no meio rural. ''O trabalho infantil na zona rural foi o primeiro a ser atacado por ações de erradicação. O trabalho infantil urbano é um assunto que vem sendo discutido mais recentemente'', explica a jornalista.
Hoje, em todo o Brasil, existem mais de 500 projetos de erradicação do trabalho de crianças. No livro, a jornalista e a fotógrafa mostram alguns deles, que são considerados modelo pela Fundação Abrinq de Proteção a Criança e outros consultores da OIT.
Um dos programas visitados pela jornalista é o Bode Escola, desenvolvido pelo programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) do governo federal, na Bahia. A família atendida recebe emprestado três bodes e uma cabra. Em troca precisa mandar os filhos para a escola. Dessa maneira a família passa a ter leite e pode passar a criar os animais, já que depois de algum tempo terá que devolver os animais recebidos pelo programa. ''É um projeto que custa R$ 200,00 por família, mas está mudando a vida de muita gente. Há crianças, de famílias inteiras analfabetas, que nunca tinham tomado leite até a implantação do projeto'', conta Andréia.
Para Andréia, a redução do trabalho infantil está estagnada no Brasil, porque os programas existentes hoje não são suficientes para combater essa realidade. ''A questão do trabalho infantil é a síntese de todas as mazelas do Brasil. Para combatê-lo é preciso resolver questões como a da terra, da distribuição da renda e até mesmo questões culturais'', acredita. Na questão cultural, ela cita o exemplo das colônias de imigrantes do Sul do Brasil. ''No Sul, o trabalho é visto como um valor, como algo que enobrece o homem, independentemente da idade. No Nordeste também existe esse valor, mas as famílias levam a criança para a situação de trabalho muito mais impulsionadas pela miséria absoluta'', compara.

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