Era uma vida de tristeza
É com melancolia que a aposentada Júlia (nome fictício), 74 anos, lembra dos tempos em que permaneceu acamada na casa de parentes. Depois de passar a vida cuidando de outras pessoas pois sempre trabalhou como empregada doméstica , ela adoeceu e passou a morar com familiares. "Venderam minha casa e fui morar na dependência, onde ficava sozinha o dia inteiro. Era uma vida de tristeza", recorda.
A idosa dependia da boa vontade de parentes para tomar banho, recebia o jantar após as 21h ("achava muito tarde, às vezes ficava com fome"), e não podia receber visitas. "Ficava o tempo todo na solidão, pois o pessoal da casa não gostava que as pessoas viessem me ver."
Por isso, quando ofereceram a possibilidade de ser acolhida em uma instituição, ela aceitou sem qualquer dúvida, e, hoje, recebe apenas visitas esporádicas dos parentes. "Aqui é bem melhor, tenho banho, comida e companhia. Como fui muito boa para os outros, tive a sorte de ter vindo para cá", comemora.
Passar vontade
Sem vínculos familiares - era filho único e nunca se casou -, o aposentado Mário (nome fictício), de 70 anos, até tentou encontrar parentes na região após perder os pais, mas não teve êxito. "Voltei para o norte do Paraná pensando que encontraria alguém, mas não aconteceu", recorda. Sem ter onde morar, Mário acabou passando uma temporada na rua.
O dinheiro da aposentadoria, segundo ele, não era suficiente para pagar aluguel, alimentos e cigarros. "Além disso, perdi meus documentos e não conseguia sequer entrar em uma pensão", conta o idoso, que chegou a pedir comida.
Cansado de perambular por Londrina, ele encontrou o Sinal Verde, que atende moradores de rua, e pediu um lugar para morar. Acabou encaminhado para uma instituição, onde está há poucos meses. "Aqui é bom, tudo na hora certa", diz Mário, que não se nega a oferecer cigarros aos colegas que não têm condições de comprar. "Sei bem o que é passar vontade", comenta. (C.A.)





