'Era seguido, observado e fotografado'
Londrina - O professor universitário Alcides Vítor de Carvalho, de Londrina, foi um dos estudantes presos pelo regime militar durante o emblemático 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), em 1968. ''Foram 3 mil soldados contra 850 estudantes'', relata ele, reforçando a incapacidade de defesa dos jovens reunidos.
Durante os 20 dias de prisão, ele sentiu muito medo, principalmente por causa das histórias recorrentes de amigos torturados e mortos. De volta a Londrina por intervenção do então governador do Paraná, Paulo Pimentel, ''que enfrentava uma greve de professores e quis agradá-los, trazendo de volta os presos políticos'', ele enveredou pela cultura e pelo teatro para continuar fazendo oposição ao regime.
Nos anos seguintes à prisão, Carvalho conta que sofreu uma perseguição velada. ''Era seguido, observado e fotografado'', revela o professor, que foi proibido, por um ano, de dar aulas no ensino regular estadual. ''Na universidade, apareciam uns 'alunos' desconhecidos, que na verdade estavam lá para investigar o que eu falava aos estudantes'', acrescenta.
Cansado da rotina incessante de preocupação e medo, ele recebeu um convite e mudou-se para a França, onde morou por três anos. Voltou em 1976 e retomou as atividades políticas, principalmente no movimento sindical. As consequências da perseguição durante a ditadura militar foram superadas depois de muito tempo. ''Sentia um medo irracional quando passava perto de militares'', recorda.
Sobre a Comissão da Verdade, Carvalho acredita que o modelo adotado é adequado por não dar brechas ao surgimento do que chama de ''revanchismo tardio''. ''Não se trata de vingança, mas de esclarecimento para que algumas injustiças possam ser sanadas'', opina. A maior recompensa, segundo ele, é a volta do interesse por esse período da história depois de um lapso de tempo em que imperou o silêncio sobre o assunto. ''Um pedaço da história que foi encoberto vai aparecer. É a época certa para trazer à tona um período que ainda dói no coração de muita gente.''(C.A.)





