Rio - Uma equipe de estrangeiros está vivendo há mais de duas semanas em duas casas de uma das maiores favelas do Brasil, a Rocinha, localizada no bairro de classe média alta de São Conrado, na zona sul do Rio, para produzir um documentário, um CD e um livro.
Eles são da ''Colors'', a revista da Benetton, criada em 1991 pela equipe de Oliviero Toscani, fotógrafo publicitário responsável pelas controversas e impactantes campanhas da marca.
Para produzir o material, entrevistas com moradores do morro e gravações em vários pontos da favela têm sido a rotina diária do grupo, que é formado por um sul-africano, um espanhol e dois brasileiros. Um dos brasileiros é o produtor musical Berna e o outro é o fotógrafo e cinegrafista Batman Zavareze.
Além das produções, outro objetivo da equipe é selecionar um jovem que passará um ano na Fábrica, uma espécie de laboratório de idéias mantido pela Benetton.
Para ter uma noção fiel da vida dos moradores da favela, o diretor do documentário e do projeto como um todo, o espanhol Carlos Casas, 28, e o fotógrafo sul-africano Peter Hugo, 26, se dividiram e, desde o dia 15, estão morando em duas casas diferentes da Rocinha.
A idéia do documentário é retratar a vida da favela e o dia-a-dia de seus moradores. O projeto quer documentar a maneira como essas pessoas conseguem viver em meio à pobreza, ao tráfico de drogas e ainda ser capaz de produzir uma rica vida cultural.
O CD terá músicas de artistas desconhecidos, moradores da favela, e ritmos populares na Rocinha, como o funk, o hip hop, o forró e o samba. O livro vai complementar o CD e o documentário, destacando detalhes da rotina dos moradores, do meio ambiente e da arquitetura do morro.
Casas e Hugo não enfrentaram grandes dificuldades para se instalar na favela nem para começar os trabalhos. Algumas negociações prévias, no entanto, tiveram que ser feitas para garantir a segurança dos estrangeiros.
A primeira delas foi escolher duas pessoas conhecidas e respeitadas pela comunidade com quem eles iriam morar. Para isso, o diretor do documentário foi hospedado na casa de um líder comunitário e produtor cultural local e Hugo foi morar com um fotógrafo. A segunda foi orientá-los quanto a algumas regras impostas pelo tráfico de drogas. Elas se resumiam, basicamente, a não filmar de perto pessoas armadas nem a venda de drogas. E a terceira foi organizar um churrasco numa laje e convidar o máximo de moradores possíveis para que eles se entrosassem.
A violência e a pobreza não foram o que mais impressionou Casas. ''O que me deixou mais impressionado foi a rede de relações que liga todos esses moradores. É como se fosse uma grande família, todos se conhecem.'' Para ele, é como se a favela fosse uma cidade separada do resto do Rio. ''A Rocinha tem um ritmo próprio, ela funciona independente do resto da cidade.''
Já Hugo compara a Rocinha com a África do Sul. As regras onipresentes e as separações dos mundos, na sua opinião, lembram a realidade sul-africana. ''Aqui existem regras do que pode e do que não pode, independente das leis do país. São leis próprias. E existe a separação dos mundos. Aqui, a Rocinha, os mais pobres, e, lá embaixo, os ricos.''

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