Brasília, 28 (AE) - A equipe econômica preparou uma série de números para mostrar a evolução do poder de compra do salário mínimo desde que foi criado, em 1940, para orientar a decisão do governo sobre o novo valor e rebater argumentos do economista e professor Márcio Porschmann, da Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo. Segundo Porschmann, o mínimo deveria ser hoje de 489 reais para preservar o poder de compra que tinha 60 anos atrás.
Os dados serão apresentados amanhã (29), em duas ocasiões: na reunião do presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio da Alvorada, com cinco ministros para discutir o assunto e na primeira audiência pública da comissão especial que discute o reajuste do salário mínimo na Câmara, onde Porschmann é um dos debatedores convidados. As afirmações feitas na semana passada pelo economista e publicadas com destaque na imprensa estão incomodando o governo, que não sabe de onde foram retiradas.
O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo, disse hoje que a decisão do governo sobre o novo valor do mínimo partirá do pressuposto de que o poder de compra cresceu nos últimos anos e não decaiu. Pelos cálculos que serão mostrados amanhã ao presidente, o poder aquisitivo do mínimo aumentou 15,2%, de 1989 para cá, e 26,8%, considerando-se como deflator o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
Ainda de acordo com os dados da Secretaria de Política Econômica, em reais de hoje, o salário mínimo de 1940 valeria 133,22 reais e não 489 reais, estimados por Porschmann. "Portanto, os atuais 136 reais estão 2,1% acima, em termos reais, do que o mínimo de 60 anos atrás", acrescentou Amadeo. Ele lembrou que desconhece o deflator usado nos cálculos do professor da Unicamp.
Outra consideração da equipe econômica é que o poder aquisitivo do salário mínimo não deve ser isolado do grau de cobertura entre os assalariados. Amadeo disse que, em 1960, 70 7% dos trabalhadores brasileiros ganhavam até um salário mínimo. Esse porcentual caiu para 53,2% em 1970. "Hoje, apenas 21,3% dos trabalhadores dos mercados formal e informal recebem menos ou igual a um salário mínimo", afirmou.
Ele lembrou ainda que, seguramente, em 1950, mais de metade da população brasileira ainda vivia no campo. A reunião de amanhã de Fernando Henrique com a equipe econômica não servirá para bater o martelo em torno do novo valor do mínimo, mas sim definir os parâmetros que vão balizar a decisão do governo. A tendência é que o novo número seja anunciado somente entre o fim de março e meados de abril. Participarão do encontro de amanhã no Palácio da Alvorada os ministros Pedro Malan (Fazenda), Martus Tavares (Planejamento, Orçamento e Gestão), Pedro Parente (Casa Civil), Aloysio Nunes Ferreira (Secretaria-Geral da Presidência) e Waldeck Ornélas (Previdência Social), além do secretário de Amadeo.
No encontro, os ministros levarão ao presidente os vários cenários possíveis para o reajuste e a repercussão no ajuste fiscal. Segundo Amadeo, o importante é que a decisão não venha prejudicar a evolução positiva obtida no último ano nos resultados das contas do governo. "Já que o reajuste do salário mínimo é uma prioridade social, é importante que os defensores de aumentos reais elevados também indiquem de onde vão sair os recursos", afirmou Amadeo.

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