Quito, 25 (AE) - Sob a densa neblina que cobre Quito todas as noites e um frio de 10 graus, dezenas de pessoas fazem fila na porta de uma repartição pública no centro da cidade. É a fila dos que querem deixar o país. É preciso chegar às 17 horas da véspera e dormir na calçada para conseguir uma senha no outro dia de manhã e voltar na madrugada seguinte para requisitar um passaporte.
"Quero ir para Perugia, na Itália", diz Roberto Ordoñez, 19 anos, com curso técnico de mecânico. "Não tenho futuro aqui." Já o artesão Wilson Malla, de 39 anos, não sabe para onde vai. "Para qualquer parte do mundo", diz. "O importante é sair daqui."
Num país assolado por um desemprego de 18% e subemprego de 56%
a falta de perspectivas leva muitos equatorianos a querer ir embora - não necessariamente de maneira legal. Máfias da migração cobram até US$ 6.000 para ajudar as pessoas a entrar clandestinamente nos Estados Unidos, em caminhões de cargas. Muitos são flagrados, presos e deportados.
A maranhense Tânia Cavalcante de Souza, 33 anos, engenheira eletricista da companhia elétrica estatal Provincial Cotopaxi, também se prepara para deixar o Equador, onde vive há seis anos, e voltar para o Brasil. Tânia endividou-se em dólar para comprar seu Corsa, fabricado no Brasil, por US$ 12.500. "Quando comprei o carro, em julho de 1998, o dólar valia 5.100 sucres", contabiliza. "Daí, começou a subir." Como a brasileira, muitos equatorianos fizeram dívidas em dólares, para escapar aos juros de até 150% ao ano.
Mas não é só por causa da desvalorização da moeda que Tânia quer ir embora. A cidade em que vive, Latacunga, 140 quilômetros ao sul de Quito, fica perto do vulcão Cotopaxi. "Se ele entrar em erupção, tudo o que há lá vai desvalorizar-se, como ocorreu em Baños", diz. O balneário de Baños, no centro do país, foi arrasado pelo vulcão Tungurahua, em 1998. Os motivos de Tânia sintetizam os problemas vividos pelo Equador nos últimos anos: uma mescla de desastres naturais e crises econômicas, acompanhada de turbulências políticas.
Em meados dos anos 90, a economia vinha dando mostras de recuperação da longa crise decorrente da queda do preço do petróleo. A inflação caía e o Produto Interno Bruto voltava a crescer. Em 1995, no entanto, veio o conflito militar com o Peru
que sangrou as economias dos dois países. Simultaneamente, o preço do petróleo começou a cair. Nos anos seguintes, o fenômeno El Niño. As inundações prejudicaram a agricultura, destruíram a infra-estrutura e inibiram o turismo. Em seguida, o vulcão Tungurahua retomou sua atividade.
A deterioração da economia conduziu à instabilidade política. No fim de 1996, o recém-eleito presidente Abdalá Bucaram, na tentativa de reduzir o déficit público, cortou subsídios a serviços públicos e à cesta básica. A explosão dos preços e a revolta da população criaram o ambiente para sua destituição pelo Congresso. A sucessora natural, a vice-presidente Rosalía Arteaga, não conseguiu assumir porque o então presidente do Congresso, Fabián Alarcón, conseguiu angariar mais apoio. Alarcón governou por 18 meses e convocou eleições para agosto de 1998, quando foi eleito Jamil Mahuad.
Há uma semana, era a vez de o presidente escolher entre a renúncia e a destituição. Foi quando partiu para a dolarização, por ele mesmo qualificada dias antes como "um salto no vazio". (L.S.)