Quito, 20 (AE-DOW JONES) - O Equador poderá deixar de pagar parte do serviço da dívida que vence no próximo dia 28 e tentar ganhar tempo para negociar uma reestruturação ampla, em termos mais vantajosos. A opinião é de analistas ouvidos pela repórter Carol Remond, da Dow Jones.
Um dos cenários em discussão em Wall Street prevê que o Equador faça em dia o pagamento de US$ 45 milhões relativo aos bônus PDI (Past Due Interest) e tente acessar os colaterais (garantias) dos US$ 53 milhões relativos aos bônus Discount.
Na renegociação de sua dívida, em 1994, o Equador emitiu quatro tipos de bônus Brady: PDI, IE (Interest Equalization), Par e Discount. Os títulos Par e Discount têm colaterais tanto para o principal como para os juros, enquanto os PDI e os IE não têm.
Ontem, um alto funcionário do governo equatoriano descartou a hipótese de moratória e afirmou que o país está preparado para fazer o pagamento dos US$ 98 milhões no vencimento, dia 28 (na verdade, no dia 31, porque dia 28 é sábado e dia 30 é feriado em Londres). Ao mesmo tempo, a ministra das Finanças, Ana Lucia Armijos, está em Washington discutindo uma carta de intenções com o FMI.
Economistas ouvidos na reportagem observaram que não faria sentido o Equador destinar recursos valiosos para pagar o serviço dos Bradies durante as negociações para uma reestruturação. "Se você reconhece que uma reestruturação está a caminho, por que fazer mais um pagamento", indagou o analista Michael Henry, do ING Barings.
"O FMI é muito favorável à noção de envolvimento dos credores privados na solução dos problemas. Se o Equador quer ter acesso a uma reestruturação das dívidas bilaterais, ele terá que buscar algum alívio junto ao setor privado", comentou o analista Javier Kulesz, do BankBoston, referindo-se aos credores do Clube de Paris, com quem o Equador vai negociar assim que conclua seu acordo com o FMI.
Hoje, o Fundo anunciou que uma missão vai a Quito neste fim de semana e deixou claro que um acordo com o FMI "complementaria" arranjos entre o Equador e seus credores privados.
Para os analistas, o Equador deverá recorrer a uma tática nunca usada antes: acessar os fundos reservados como colaterais de um dos bônus (o Discount) para fazer um pagamento parcial e ganhar tempo para negociar.
"Nós acreditamos que o cenário mais provável é que o governo tente pagar o serviço dos Discount com a liberação de parte do colateral durante o período de 30 dias de carência que se segue ao vencimento, no dia 28", escreveram os analistas Vincent Palermo e Amy Auster, da Chase Securities.
Os economistas divergem, porém, na interpretação dos termos do acordo de renegociação da dívida equatoriana pelo Plano Brady.
Para alguns, recorrer ao colateral implica o reconhecimento de um "default", o que permitiria aos credores decidir em votação se vão ou não exigir o pagamento completo e imediato dos bônus.
Para outros (entre eles Palermo e Auster, da Chase, e Kulesz, do BankBoston), o Equador pode evitar o "default" e acessar os colaterais. "Pelo que se lê no documento do acordo, há bastante espaço para que o governo use os colaterais sem entrar em default", disse Kulesz.
O problema é que pelo menos 25% dos portadores dos bônus Discount teriam que votar a favor da liberação dos colaterais. Uma votação contrária, porém, poderia acabar forçando o Equador a um pagemento completo.
Como os Bradies estão amplamente disseminados, não está claro como todos os portadores dos bônus poderiam ser informados de seus direitos pela Chase Securities, agente do acordo Brady do Equador. "Tal plano não tem como funcionar, a não ser que o emissor consiga encontrar os portadores de pelo menos 25% da dívida e que eles concordem", disseram os analistas da Chase.
Mas, caso o país consiga, ele acabará desembolsando apenas os US$ 45 milhões referentes aos PDI no fim do mês, ganhando tempo para negociar uma reestruturação ampla com os credores privados.
"Se a manobra for bem sucedida, por US$ 45 milhões o Equador terá comprado seis meses de paz relativa (assumindo que ele consiga fazer o mesmo com os bônus Par, em novembro), durante os quais poderá tentar uma reenegociar uma reestruturação de toda a dívida em Bradies", acrescentaram os analistas.

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