Equador declara moratória parcial sobre juros de Bradies
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de setembro de 1999
Por Fábio Pahim Jr. 
Washington, 27 (AE) - A moratória declarada pelo Equador foi menor do que a esperada - aproximadamente a metade dos US$ 96 bilhões em Bradies que estavam prevista, pois o país pagará os títulos que têm garantias colaterais - mas é um precedente perigoso.
Nunca tinha ocorrido um calote em Bônus Brady (que resultaram da renegociação das dívidas externas dos países) e os investidores tenderão a ficar desconfiados. "É um fato inegavelmente ruim, pois as pessoas tenderão a temer o contágio, por menor que seja o valor que está deixando de ser pago", observou o presidente do Citibank no Brasil, Alcides Amaral.
O ex-presidente do Banco Central, Carlos Langoni, enfatizou que se "trata de um precedente, pois a moratória do Equador estimulada pelo Fundo Monetário Internacional". Segundo Langoni
"é importante observar como o mercado reagirá, nos próximos dias, a esse novo dado da realidade política - um default admitido pelo FMI".
Ambos assistiram a um evento sobre o Brasil organizado pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, realizado hoje em Washington, num dos encontros paralelos à 54ª reunião do FMI-Banco Mundial.
A admissão de um calote pelo FMI também foi destacada pelo diretor e economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya (BBV), Octávio de Barros. "Houve uma clara demonstração do FMI de que os problemas financeiros dos países não poderão mais ser resolvidos com o dinheiro das demais nações, via Fundo Monetário
mas terão de contar com o setor privado, ou seja, os investidores nos títulos". Isto significa um "turning-point" (mudança de rumo).
"O FMI foi mal sucedido em algumas intervenções e está dando um sinal ao mundo de que as coisas mudaram, inclusive quanto ao chamado moral hazard", uma justificativa para apoiar os países com vistas a evitar o contágio global.
Os efeitos do calote equatoriano sobre o Brasil tenderão a ser pequenos. René Aduan, diretor do Banco Real, assinala que só haverá repercussão sobre o Brasil se houver repercussão sobre a Argentina, "que é o país que realmente conta, hoje, do nosso ponto de vista".
Os primeiros dias serão decisivos, segundo o diretor de uma instituição paulista. Operações tenderão a custar mais caro, mas
no Brasil, não haverá impacto instantâneo pois só haverá vencimentos de dívidas com o exterior em meados de outubro.
Domingo à noite, antes da moratória, o presidente da Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban) e do Banco Itaú, Roberto Setúbal, notou que "este é um momento de forte conservadorismo".
O noticiário sobre os riscos do "bug do ano 2000", ou "Y2K" representam uma evidência desses temores, admitiu Setúbal, esperando um período de maior turbulência nas próximas semanas.
O economista Alexandre Scheinkman, de Princeton, foi lacônico sobre o Equador. "Não podia pagar, não pagou." Suas preocupações, quanto ao Brasil, referem-se às questões do equilíbrio fiscal a longo prazo, a começar da incorporação da economia informal à Previdência Social, para fortalecer o sistema previdenciário no longo prazo.
Contraste - O Equador não foi o tema dominante no encontro formal da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos que debateu os problemas basileiros. O diretor gerente adjunto do FMI, economista Stanley Fischer, referiu-se elogiosamente aos esforços feitos pelo País nos últimos meses, em que se registra uma melhora na situação fiscal.
Antes dele haviam falado o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, para quem a situação está sob controle no curto prazo, e o embaixador Rubens Barbosa.
Quanto às tendências de longo prazo, segundo Armínio, o Brasil está no quarto trimestre consecutivo de cumprimento do acordo com o FMI.


