O prefeito Nedson Micheleti já admitiu, por diversas vezes, que o assunto Lago Igapó foi seu principal problema em 2001. Agora, o prefeito avalia que a polêmica gerada após o esvaziamento do Igapó 2 desgastou o seu governo porque as pessoas relacionaram esse fato com outras carências, como a própria manutenção da cidade.
Em entrevista exclusiva à Folha, o prefeito afirmou que o ano foi trabalhoso, difícil, mas considera que cumpriu as metas que traçou. Ele também reforçou que, em 2002, espera poder retribuir com obras a ‘‘paciência’’ que os londrinenses tiveram com seu governo em 2001. Leia abaixo, os principais trechos da conversa.




Folha – Que balanço faz desse primeiro ano à frente da Prefeitura?
Nedson – As dificuldades já eram esperadas devido ao endividamento do município. Traçamos uma meta para 2001 que consideramos cumprida: fecharmos o ano com uma situação fiscal equilibrada e com superávit. Estamos terminando o balanço do ano, mas fecharemos com superávit de, no mínimo, R$ 2 milhões. Todo o endividamento pesado foi resolvido. Um outro desafio era iniciar os três projetos principais da nossa administração, mesmo sabendo que não iria conseguir fazê-lo de forma ampla. Implementamos o bolsa-escola, o saúde da família com 81 equipes no programa e o Rede da Cidadania em alguns pontos da cidade.
Folha – Este seu primeiro ano de governo exigiu mais do que o senhor imaginava?
Nedson – A única surpresa aconteceu com o Igapó. No mais, controlamos a questão dos camelôs, dando uma solução adequada para a situação. Falta agora a construção do shopping popular. A Frente de Trabalho também. Reconhecemos o tempo de serviço deles junto ao INSS, aposentamos um número significativo e depois fizemos o PDV (Plano de Demissão Voluntária). Não precisei demitir ninguém.
Folha – Uma crítica que se faz ao seu primeiro ano de governo foi a ausência de obras... Nedson – Só faltava quererem obras ainda. Se eu fosse fazer obra, eu teria que endividar a cidade. Nós optamos por sanear as contas do município, sem endividamento.
Folha – O senhor tocou na questão do Lago Igapó, esvaziado há mais de oito meses. Como devem seguir as obras?
Nedson – Foram refeitos todos os editais e relançamos na semana passada. Até agora a Prefeitura não gastou nada, porque a empresa que ganhou a concorrência anterior não quis fazer a obra. Como reduzimos bastante o projeto, o custo da obra deve ficar na faixa de R$ 500 mil, para consertar a ponte e refazer o vertedouro sob a Higienópolis.
Folha – O senhor avalia que houve crime ambiental no esvaziamento do lago?
Nedson – De forma alguma. Houve a participação dos órgãos ambientais em todo o processo. O problema foi administrativo, com relação ao andamento da obra e não ambiental. As pessoas reclamam pela questão visual. O processo foi ambientalmente adequado.
Folha – A tentativa de venda da Sercomtel Celular também é muito lembrada nas ruas, pois o PT tem uma postura contrária às privatizações. Para justificar a venda, o senhor usou o mesmo argumento que o Governo do Estado usou para tentar vender a Copel: acirramento da concorrência com a abertura de mercado. Como o senhor analisa essa aparente contradição?
Nedson – Essa é uma questão objetiva e clara. Que empresa está hoje no Paraná concorrendo com a Copel em energia? Nenhuma. Com relação ao Sercomtel, já temos duas e vai entrar mais uma. Outra coisa é a função pública da questão: eletricidade e telefonia celular. As comparações foram feitas mais para tentar amenizar a ação do Governo do Estado na questão da Copel. Nós temos aqui em Londrina uma concorrente pesada na celular que já ocupou em dois anos e pouco de operação mais da metade do mercado e está vindo uma outra potentíssima, que é a TIM. Mas essa é uma matéria vencida no que diz respeito a venda da empresa. O plebiscito já decidiu isso. Agora, eu tenho falado que quando a TIM se instalar no decorrer desse ano com a banda D, conforme ela impactar o mercado, eu vou ter a responsabilidade de informar o povo de Londrina e, se for o caso, conforme a situação do mercado, reabrir a discussão.
Folha – Outra evidência é que as pessoas o vêem como um político honesto. Por outro lado, acham que a administração não teve a agilidade que deveria.
Nedson – A questão de manutenção da cidade requer investimentos. Eu, por exemplo, não consegui comprar nenhum maquinário. Para se manter a cidade, não adianta ter aqueles tratores e caminhões velhos que funcionam um dia e ficam o resto da semana na oficina. Eu acho que a imagem que o povo de Londrina pegou como um governo que teve dificuldades no encaminhamento administrativo, ela se firmou em função do Lago Igapó. Acho que o grande desgaste foi alí. Isso acabou enveredando para a área política, na mexida que eu precisei fazer.
Folha – Em relação à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que prevê que a folha de pagamento do município não ultrapasse os 54% do orçamento, o município já se adequou à essa questão?
Nedson – O município está enquadrado na LRF, que coloca que até o final de 2001 teria que ter atingido metade da meta e a outra metade até o final de 2002. Atingimos a meta no primeiro ano, temos até o final do ano para chegar aos 54% e vamos cumprir. Reduzimos quase mil funcionários, contando os da frente de trabalho, os que se aposentaram, os que pediram demissão e os que foram exonerados. Não terminamos ainda o balanço do ano, mas a nossa previsão é que o comprometimento com a folha fique abaixo de 60%. Nós pegamos a Prefeitura com 73%.
Folha – Em relação aos problemas sociais, o senhor já citou pelo menos três ações que devem ser implementadas. Especificamente em relação à criança e adolescentes, que estão praticamente abandonados, que medidas o senhor pretende tomar:
Nedson – Vamos fortalecer nossas ações na área social com o bolsa-escola e ampliar a rede da cidadania. Lógico que só isso não resolve o problema da violência. São necessárias ações de longo prazo. Eu vou estar triplicando o número de conselhos tutelares, com mais dois até o final do mês. Mas é preciso uma ação integrada com o Governo do Estado, já que na verdade essa questão acaba entrando num aspecto que o município não tem a governabilidade e sim o governo estadual. Mas, mesmo assim, estamos fazendo reuniões setoriais, ouvindo segmentos da sociedade para definir que forma o município pode agir. Eu pretendo tentar uma solução em relação à isso ainda antes do Carnaval.
Folha – A relação com a Câmara também deve ser amigável, mesmo sendo ano de eleição?
Nedson – Acho que sim. Não afeta diretamente porque como a eleição não é municipal, não haverá esse tipo de conflito na cidade. Vai ser tão tranquila como foi no segundo semestre. Talvez tenhamos problemas com o Governo do Estado, mas isso já estamos tendo.
Folha –- Como deve ser esse ano de 2002?
Nedson – Eu acho que nesse ano o grande caminho é o cuidado geral da cidade. Temos R$ 20 milhões de recursos próprios e vamos fazer a limpeza geral das galerias, jardins, praças, reformas em quadras esportivas, campos e ginásios deteriorados, estradas rurais, o recapeamento da malha viária e asfalto para os bairros que ainda não têm, construção de salas de aula e reforma em postos de saúde. Não estamos programando obras de grande porte.

mockup