Epidemia de Aids cresce mais no Sul
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sexta-feira, 19 de junho de 1998
Lucia Martins Agência Folha 
O primeiro relatório de 1998 de novos casos de Aids, divulgado ontem pelo Ministério da Saúde em Porto Alegre, indica que o Sul é a região do país onde a epidemia mais cresce. A incidência da doença nessa região (casos por 100 mil habitantes) subiu de apenas 1,9, em 1989, para 11,5, em 1997/1998. É a maior taxa de incidência das cinco regiões. Segundo o ministério, o número de novos casos por ano no Sul é de 1,33 por 100 mil.
No Sudeste, onde há o maior número de casos notificados desde 1980, a epidemia cresce a 0,55 por 100 mil. Essa tendência já vinha sido observada no fim do ano passado, mas foi confirmada pelos casos de doentes de Aids registrados até fevereiro deste ano. A epidemia está resistindo no Sul em grupos de usuários de drogas injetáveis e em heterossexuais. Por isso, decidimos fazer um plano emergencial para essa região , afirma Pedro Chequer, coordenador do Programa Nacional de Aids do ministério.
Ao todo, o Sul registrou até hoje 16.274 casos do total de 128.821 registrados no país desde 1980, segundo relatório divulgado ontem. Calcula-se que o uso de drogas seja responsável por quase 40% das novas infecções no Sul. No país, esse percentual é de 25%. O crescimento da participação dos heterossexuais no total de casos foi o maior na região Sul do que nas outras. Subiu de 13,5% para 36,5% entre 1987 e 1997.
O plano emergencial foi traçado pelo ministério em um encontro, ocorrido em abril, que reuniu membros do ministério e representantes dos três Estados (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e de 39 municípios. Para conter a epidemia, o ministério convocou os secretários da Saúde para que intensifiquem os programas de prevenção.
A preocupação com a região Sul também pôde ser sentida no discurso do ministro José Serra, que ontem divulgou o relatório. Ele ressaltou o fato de o Brasil ter um dos melhores programas contra a epidemia da Aids no mundo, mas criticou as filas do Hospital das Clínicas de Porto Alegre. Eu só espero que o Rio Grande do Sul dê um jeito no Hospital das Clínicas, que é o único lugar onde há fila na emergência para Aids , disse.
Serra veio a cidade só para anunciar o relatório de novos dados de casos notificados, que é divulgado trimestralmente pelo ministério. Segundo ele, em 1998, serão gastos R$ 428 milhões apenas com remédios (chamados de coquetel) contra o vírus HIV - que causa a Aids - mais R$ 228 milhões com o resto do programa. A previsão para o ano que vem é que sejam gastos apenas com remédios cerca de R$ 600 milhões.
O ministro também afirmou que pretende tentar retirar os impostos sobre a camisinha e baratear os seus custos. Prevenção custa apenas um décimo do tratamento da Aids .
O nova tendência da epidemia da Aids, principalmente, no Sul e Sudeste do país é o crescimento em heterossexuais. Em 1985, o maior número de infectados eram homossexuais (51,3%). Os heterossexuais representavam apenas 3,3% do total.
Em 1997/98, o quadro se inverte no Brasil. Os heterossexuais com Aids já representam 33,3% do total e são o maior grupo. Os homossexuais, hoje, são apenas 14,5% do total.
Para tentar atacar esse novo grupo de risco, que o próprio ministro José Serra afirmou ser o mais difícil de ser atacado, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo lançou nesta semana uma campanha em TVs e rádios dirigida aos heterossexuais. Quebre o silêncio, converse com o parceiro e previna-se contra a Aids é o slogan da campanha.


