Rio, 04 (AE) - Uma enzima obtida pela fermentação do gérmen de trigo é a mais nova esperança na luta contra o câncer - uma substância improvável desenvolvida num país igualmente improvável: a Hungria. Os testes preliminares com seres humanos, que começaram a ser realizados há dois anos, apontaram uma regressão de tumores em 70% dos casos estudadosde melanoma, leucemia e metástase no fígado. Os resultados serão apresentados pela primeira vez à comunidade científica internacional no 1º Congresso Luso-Brasileiro de Cancerologia, que acontecerá em Vitória (ES) de 21 a 24 deste mês.
Embora a pesquisa tenha se iniciado há dez anos na Universidade de Budapeste, os cancerologistas Ferenc Jacab, Károli Lapis e Máté Hidvégi só agora encontraram espaço num fórum internacional para mostrar e discutir os resultados. "Acredito que vá ser a mesa-redonda mais procurada do congresso
até porque os americanos ainda não se pronunciaram sobre esse trabalho", afirmou o presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC), Roberto Gomes. Ele alertou, porém, que são necessários pelo menos cinco anos de testes em seres humanos para se chegar a uma conclusão sobre a eficácia da substância e para uma possível comercialização.
"Não estamos aqui proclamando a cura do câncer, mas temos esperança de que a nova droga possa aumentar a sobrevida de pacientes em estado avançado da doença e também atuar de forma eficiente na prevenção dos tumores", disse o médico. Concentrado - A história começou quando um pesquisador húngaro percebeu que a benzoquinona, encontrada de forma diluída no gérmen de trigo in natura, tinha a propriedade de estimular o sistema imunológico. Seus colegas, especialistas em câncer, passaram, então, a perseguir uma forma de obter um concentrado de benzoquinona, por intermédio da fermentação e da transformação da substância em pó. A droga foi patenteada na Inglaterra com o nome de Avemar.
O estudo vem indicando que a substância aumenta a produção e a ação dos glóbulos brancos, possibilitando que o organismo combata as células cancerosas. "O Avemar seria usado para uma imunoterapia e não para quimioterapia", explicou Gomes. Traduzindo: enquanto a quimioterapia mata as células cancerosas, a benzoquinona agiria para aumentar a capacidade dos linfócitos de destruir os tumores. A diferença, segundo Gomes, está no fato de que a quimioterapia destrói não apenas as células malignas, mas também as sadias. "É um tratamento muito tóxico e, ao contrário, o Avemar não apresentou até agora nenhum efeito colateral", apontou.
A ausência de efeitos colaterais também seria a vantagem da nova droga em relação aos outros medicamentos imunoterápicos. Nos testes com camundongos, já concluídos, houve redução de até 100% em melanomas e leucemia. O detalhamento dos resultados nos testes com humanos será trazido pelos húngaros para o congresso, mas Gomes adiantou que o próximo passo vai ser testar a eficácia da benzoquinona na prevenção do câncer em pessoas que já tenham tido a doença ou que sejam casos de risco. "Se for possível combinar o tratamento com Avemar e a quimioterapia e ainda ficar demonstrado que a droga é eficaz na prevenção, isso vai abrir muito o leque de utilização da substância", avaliou.

mockup