Enxugamento do Estado provoca expansão do "terceiro setor"
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quarta-feira, 14 de julho de 1999
Por Sérgio Bueno 
Porto Alegre, 15 (AE) - Estimulado pelo "enxugamento" do Estado e das empresas privadas decorrente do processo de globalização econômica, o chamado "terceiro setor", cujas referências mais conhecidas são as organizações não-governamentais (ONGs), está experimentando uma expansão sem precedentes no Brasil. Entre 1991 e 1995, o número de pessoas envolvidas nessas atividades, bancadas com recursos privados mas orientadas para fins públicos não lucrativos, aumentou 45%, alcançando mais de 650 mil trabalhadores. Hoje, já passa de 1 milhão. Os números foram apresentados hoje pelo professor Léo Voigt, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), durante simpósio na 51ª Reunião Anual da SBPC.
"Estamos assistindo a uma redivisão social do trabalho social e à criação de uma nova alternativa de empregabilidade no País", comentou o professor. De acordo com ele, essas organizações, que atualmente se concentram em ações voltadas à garantia de direitos sociais e de fomento à cultura, já dispõem de poder para "interferir decisivamente na formulação e desenvolvimento de políticas públicas no Brasil". Esta dinâmica
entretanto, não permite ao Estado abrir mão de suas "tarefas precípuas", que precisam ser claramente determinadas, disse Voigt.
Para o professor José Vicente Tavares dos Santos, da UFRGS, que também participou do simpósio, essa expansão do terceiro setor provoca, ao mesmo tempo, uma questão essencial para o futuro das organizações envolvidas. Na opinião dele, as ONGs estão diante de uma "crise de legitimidade política" em função da "burocratização" crescente de suas estruturas. Esta condição, segundo Santos, pode levar a um "conservantismo" semelhante ao que ocorreu desde o início do século com os partidos políticos. O risco, neste caso, é o comprometimento de suas funções emancipatórias e transformadoras originais, disse o professor.
De acordo com o pesquisador Eusébio Scornavacca Júnior, da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os dados mais recentes indicam que o terceiro setor, formado por 250 mil organizações sem fins lucrativos cadastradas no Ministério da Fazenda, recebe doações equivalentes a 0,13% do PIB brasileiro. Em 1997, a cifra correspondia a cerca de US$ 1 bilhão, um volume bem inferior aos US$ 568 bilhões movimentados nos Estados Unidos no mesmo período
correspondentes a 10% do Produto Interno Bruto daquele país.
Além disso, 10% da força de trabalho norte-americana remunerada estão ligados ao terceiro setor, enquanto sete entre cada dez cidadãos envolvem-se de alguma maneira em ações de voluntariado, explicou Scornavacca. Na opinião dele, esta situação provoca um problema de gestão, pois as entidades precisam administrar um volume crescente de recursos com maior profissionalismo. "Muitas pessoas ingressam por ideal e o gerenciamento ainda é marcado pelo amadorismo", comentou.


