Envolvidos em tentativa de fraude no Rio cometeram apenas "ação imoral"
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domingo, 06 de junho de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 07 (AE) - A quadrilha e os estudantes que tentaram fraudar o vestibular para medicina da Universidade Gama Filho, no Rio, domingo, têm a lei a seu favor. Uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), de setembro de 1998, deternina que qualquer fraude eletrônica de concurso vestibular não constitui, nem mesmo em tese, crime, apenas "ação imoral".
"A decisão criou jurisprudência e os alunos que seriam beneficiados estão livres de qualquer responsabilidade criminal", afirmou o assessor do Ministério Público Estadual, coronel Valmir Alves Brum, que apura o caso. Os 32 alunos beneficiados foram desclassificados do concurso.
Brum não descarta o indiciamento dos integrantes da quadrilha por estelionato. Por enquanto a polícia só tem os nomes de Jorge Nascimento Dutra e da romena Ioana Rusei. Dutra seria o contato entre os alunos e a quadrilha e Ioana, que foi presa ao sair da prova. Ela seria uma das candidatas apontadas como "piloto". Segundo Brum, os " pilotos" eram vestibulandos inscritos somente para responder as todas questões e que deveriam sair antes do término do exame para repassar as respostas.
Em depoimento a policiais da 26º DP, em Todos os Santos, zona norte, Iona negou que tivesse qualquer envolvimento com a quadrilha. Seu advogado, Enzo Pappacena, disse que estuda entrar com um mandado de segurança contra a universidade. "Não há nada que prove o envolvimento da minha cliente nesse caso", afirmou.
Pagers - A cola consistia na transmissão de respostas de múltipla escolha da prova por um rádio transmissor para pagers, que ficavam escondidos dentro de borrachas usadas pelos candidatos. Seriam beneficiados com a fraude 32 estudantes de várias universidades do País e até da Bolívia. Eles pagariam R$ 8 mil, se fossem aprovados.
O esquema só foi desbaratado depois de um telefonema anônimo para a Fundação Cesgranrio, organizadora do vestibular, alertando sobre a fraude. A polícia descobriu que a quadrilha é de Goiânia, depois de descobrir que todas as inscrições dos alunos foram feitas por procuração naquela cidade. "Na verdade, achamos muito estranho isso, porque muitos desses candidatos são do Rio, mas mesmo assim fizeram a inscrição em Goiânia", contou o presidente da Cesgranrio, Carlos Alberto Serpa."Eles nem precisavam de procuração, já que a universidade estava aceitando inscrição até por fax."
O estudante Paulo Roberto Corrêa de Lima, de 23 anos, foi um dos que depuseram na 26ª DP. Lima, que estuda na Universidade Del Vale, na Bolívia, classificou sua atitude como um "ato de desespero". Ele explicou que, em sua universidade, é "comum" pessoas abordarem alunos oferecendo este tipo de negócio. "Fui abordado por um tal de Leco, lá na Bolívia, que me deu todas as informações de como eu deveria proceder", disse. O estudante explicou que recebeu o pager um pouco antes da prova começar, às 10 horas, de uma pessoa que se identificou apenas como Jorge.
Muitos estudantes brasileiros que não passam para universidade do País acabam se matriculando em faculdades bolivianas, que não exigem vestibular. Depois de cursar um ou dois anos, eles tentam transferência para uma instituição brasileira. Há um ano, porém, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, proibiu a transferência. "Não aguentava mais estudar na Bolívia, ficar longe da minha família", afirmou Lima
que está no terceiro ano de medicina.
Segundo ele, os R$ 8 mil cobrados pela quadrilha seriam pagos com dinheiro de sua poupança. "Iriam vender algumas coisas também."Para o vestibular de meio do ano da Gama Filho, foram inscritos 6.776 candidatos, dos quais 3.597 disputavam 100 vagas para medicina - uma média de 35 por vaga. Apesar da descoberta da fraude, a universidade não anulou o concurso. Os 32 candidatos foram desclassificados.


