Envio de tropas terrestres divide a Otan
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domingo, 23 de maio de 1999
Por Vesna Peric Zimonjic 
Belgrado, 24 (AE-IPS) - O chanceler da Grã-Bretanha, Robin Cook, reuniu-se nesta segunda-feira (24) com sua colega dos Estados Unidos, Madeleine Albright, e declarou que existe total acordo entre os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre a necessidade do envio de tropas terrestres para a Iugoslávia.
Entretanto, essa unidade não inclui dois grandes parceiros da Otan, Alemanha e Itália, cujos governos e parlamentos rechaçam terminantemente uma invasão da Iugoslávia e exigem uma solução política que envolva o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).
O comandante-supremo da Otan, o general norte-americano Wesley Clark, disse na base aérea de Vicenza, no noroeste de Itália, que a aliança não tem planos de interromper ou deter os bombardeios e que inclusive "ampliou e aprofundou sua lista de alvos" na Sérvia.
A maioria dos sérvios não ouviu a ameaça de Clark, por não ter eletricidade durante mais de 30 horas durante no fim de semana.
Frente à destruição maciça de instalações civis, observadores sérvios se perguntam o que significa a anunciada ampliação dos alvos.
Alemanha, Finlândia, Grécia, Itália, Rússia, o Vaticano e outros países tentam elaborar um esboço de acordo sobre a base das propostas de paz do Grupo dos Oito (G-8).
O G-8 é formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão - os sete países mais ricos do mundo - e a Rússia.
Mas Washington e Londres parecem ter escolhido outro caminho.
Cook disse hoje à BBC que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha se mantêm "firmemente apegados a seus objetivos, que são expulsar os sérvios, introduzir a Otan em Kosovo e promover o regresso dos refugiados" à província sérvia.
O plano dos países do G-8 incluiu a presença de uma "força internacional" em Kosovo liderada pela ONU com uma missão pacificadora, e mantém a província como parte da Sérvia.
Cook afirmou que a planejada força terrestre de 40.000 soldados será "mais uma força pacificadora. Não estamos falando de gente com capacetes azuis e armas leves".
Os ataques que a Otan lançou contra a Iugoslávia durante o fim de semana paralisaram a maior parte dos hospitais, bombas de água e padarias sérvias e mantiveram o país às escuras por mais de 30 horas.
"Sim, os sérvios também têm o direito de sofrer", disse hoje Milena Spaska, engenheira aposentada, enquanto ficava na fila para comprar pão em Belgrado.
"Obviamente alguém pensa que essa é a maneira de tratar a crise em Kosovo, fazer com que os sérvios passem fome e se enojem, mas as coisas não se resolvem tão facilmente", opinou.
Depois de suportarem por oito semanas uma farta ração diária de bombas da Otan, os sérvios sentem ansiedade, medo, fome e raiva, mas a principal pergunta política e militar é que reações desencadearão essas emoções tão fortes.
O general Clark pensa igual a seu governo, que a estratégia está funcionando apesar das baixas civis e das críticas. Clark escolheu o solo italiano para anunciar a intensificação dos ataques aéreos no domingo, e ao fazê-lo criou uma situação embaraçosa para este país.
A Itália, a maior plataforma da Otan para sua campanha aérea contra a Iugoslávia, questionou abertamente a eficácia da estratégia que a aliança militar usa para resolver os problemas políticos e étnicos da província de Kosovo, que agora vive uma crise maciça de refugiados.
Em Belgrado, o opositor Movimento de Renovação Sérvia, do ex-vice-premier Vuk Draskovic, acusou a Otan de levar a cabo "represálias coletivas" contra civis, com sua nova estratégia de destruir distribuidoras de energia.
"Esta situação exige a reação do Conselho de Segurança da ONU e não a da lenta diplomacia, porque estão violando todas as normas do direito internacional e militar, inclusive (se comete) genocídio, ante os olhos de todo o mundo", declarou o partido.
A Otan, no que seria uma reviravolta em sua estratégia militar ou de relações públicas, declarou que os últimos ataques ao povoado de Korisa em Kosovo e a um presídio na Sérvia, nos quais morreram muitos civis, foram contra alvos "legítimos".
Apenas quatro das 15 maiores cidades da Sérvia (Kragujevac, Kraljevo, Cacak e Bor) conseguiram restaurar o fornecimento de eletricidade na noite de domingo, enquanto no resto, inclusive em Belgrado, só existiu energia elétrica para alguns dos chamados "usuários prioritários".
Durante duas noites consecutivas a Otan destruiu as maiores usinas de energia do país, que abasteciam de eletricidade não só os computadores ou sistemas de radar militares, geralmente equipados com seus próprios geradores, mas também instalações civis.
A diferença desta vez em relação às outras seis ocasiões anteriores em que a Sérvia ficou às escuras, a primeira em 3 de maio, a Otan não usou as chamadas bombas de grafite, ou "suaves" que provocam blecautes temporários.
Desta vez, os mísseis destruiram a maior seção distribuidora da usina de Nikola Tesla em Obrenovac, 30 quilômetros ao sul de Belgrado, e as linhas de energia que a unem à capital e ao resto do país, provocando um dano permanente.
Nem sequer os usuários prioritários como os hospitais, as distribuidoras de água, as padarias e o transporte público tinham recuperado a electricidade na noite de domingo em Belgrado, e o fornecimento de água só funcionava parcialmente.
Segundo uma declaração das autoridades dos serviços de distribuição de água, as bombas dos reservatórios em torno da capital continuam sem funcionar e as reservas caíram a 10%. Vários caminhões cisterna foram vistos estacionados na frente de uma das maiores maternidades de Belgrado, Narodni Front.
"Começamos a utilizar o gerador que funciona com combustível, mas é só para a seção de bebês prematuros", explicou um médico. As salas de operações estão fechadas e os casos urgentes são transferidos para o Centro Clínico, que tem seus própios geradores para cirugia, acrescentou.
O centro cardiovascular Sveti Sava, o maior hospital especializado na Sérvia, situado no centro de Belgrado, e que atende exclusivamente a pacientes com ataques cardíacos, voltou a ter eletricidade na noite de domingo.
Os edifícios e ruas próximas ao hospital continuam às escuras. "Nosso gerador nos permitiu controlar os pacientes que dependem de sistemas que os mantêm com vida. Felizmente não houve tantos casos hoje", disse à IPS o médico responsável pelo turno da noite.
Os estrategistas da Otan parecem contar que os efeitos desmoralizantes de seu país fará com que os sérvios aceitem a derrota ou apresentem pouca resistência a uma força invasora.
Os economistas independentes e oficiais da Iugoslávia concluíram que os danos causados pela Otan à base e infra-estrutura industrial será provavelmente maior do que os perpetrados pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.


